segunda-feira, 27 de outubro de 2008

África minha - Nuno Monteiro


Berço, seios de minha mãe como cajus
Chegará o dia em que de novo te abraçarei
Em que de novo me embrenharei por ti e por mim
Choro, então procuro teus espaços amplos em tuas veredas de frescura;

E do guerrilheiro que foste verei nascer um belo menino
Que chegará dançando por cima das nuvens
Por detrás das estrelas e dar-me-á de comer
Meu berço, minhas saudades, todos os cheiros;

Calmo, sou eu, aqui em baixo, escutando esse choro
Feliz, gasto o meu tempo em doces
Alimento-o, serei o pai que o órfão precisa
Serei o professor, serei união;

E se fraco aqui, ao frio e à chuva, fortes são os meus guerrilheiros
Chegará o tempo em que se varrerão as nuvens e minha alma vogará
Até à minha machamba donde retirarei batata-doce, perdido no tempo,
Donde alimentarei toda a prole, toda a ideia, toda a vida;

E como os panfletos não sucumbirei ante a podridão
Nem a alienação dos que enquanto no berço foram invejosos
Cresceram de enfado, suados de enjoo
Como os panfletos, fortalecerei minha escrita e nada mais me interessará
Senão tua saúde, minha África imensa.

Nuno Monteiro

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Felizmente há luar - Luís de Sttau Monteiro



Ensina-se-lhes que sejam valentes, para um dia virem a ser julgados por covardes!
Ensina-se-lhes que sejam justos, para viverem num mundo em que reina a injustiça!
Ensina-se-lhes que sejam leais, para que a lealdade, um dia os leve à forca!

(levanta-se)

Não seria mais humano, mais honesto, ensiná-los, de pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do mundo?

(Pausa)

Quem é mais feliz: o que luta por uma vida digna e acaba na forca, ou o que vive em paz com a sua inconsciência e acaba respeitado por todos?



Todos somos Cristo, Reverência, e todos começamos pela esperança de que se realize o que há de Cristo em cada um de nós.
A uns mata-lhes a vida a esperança, a outros matam-na os que em seu nome falam, tendo-a já perdido…
Mas há quem escape, Reverência, quem chegue ao fim da vida com o seu Cristo tão intacto como no dia em que nasceu.
Esses morrem na forca ou apodrecem nas prisões, não vá a sua presença incomodar a burocracia de Deus!

Luís de Sttau Monteiro, Felizmente há luar

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Cada homem, deus de si mesmo


Fazemos das nossas vidas uma realidade aviltante. E nas costas retortas dos outros que deambulam diante de mim eu vejo o peso de toda a humilhação que nos sacrifica. Nos olhos dos meus alunos eu vejo o vazio criado e instalado, eu vejo um grito e um pedido. E o grito grita por socorro. Porque faltam âncoras, faltam melodias, falta literatura, falta poesia. Falta poesia na vida de todos eles. Na minha talvez também, da dos alunos e dos adultos. Dos adultos e dos corcundas acabrunhados que se arrastam e se atiram ao rio. Como se grassasse um vírus que nos mostra com crueza extraordinária e um vislumbre de crueldade de que matéria imperfeita somos feitos. Nascemos para sofrer quando esta vida deveria ser integralmente devotada à consagração. E hoje como ontem, como desde sempre vivemos vidas de uma realidade aviltante.
Se assim não fosse teriam os poetas que escrever para eles próprios? Onde param as fogueiras da consagração dos feitos e dos heróis? Por que morrem os heróis? Por quem morreram eles? Vão faltando flores nos campos, extinguiram-se os grandes espaços, calaram-se as grandes batalhas. Emudeceram os pensadores, acobardaram-se os partidos porque se instrumentalizaram as pessoas. Como conseguirá um viver as vidas dos outros todos. Eu sou diferente de ti. Onde repousa o meu cantinho? Quando terei finalmente tempo para ouvir a minha música?

Por isso grito que há um sentido de avilte em tudo o que somos. Avilte nas conversas iguais como labirínticos murmúrios murmurados, avilte e ultraje nos muros que erguemos perante a diferença, avilte nas expressões de desabafo e nos gestos de descrença, vergonha no olhar do outro, indefesos perante a ameaça, enrolados por uma massa gigantesca que nos comprime e formata, e toda a inveja e toda a cobardia que nos assiste. Tão iguais como descendentes de um mesmo credo. O credo da redução, o credo da vã glória, o credo da vileza, da devassa, da delação. E daí a insatisfação. Daí a nossa falta de coragem. A nossa rarefacção. Daí as vidinhas comedidas e ei-los feitos exércitos certinhos dispostos seguindo a maioria, os votos da maioria, a falta de ideais como matiz colorida, a falta de sonho que não é bola colorida, a insurreição perante as letras, perante o poeta, perante o inútil.

A falta de âncoras é gritante. A falta de tempo que as cria preocupante. A falta de interesse é o mal maior. A mesma falta de interesse que não lê livros, que não liga, que de insensibilidade em insensatez, se afunda no rio ou no poço ou na faca com que corta os punhos. O muro de silêncio que vamos construindo e que nos impede a comunicação. A falta de sentido de verdade, a falta de verdades absolutas, a falta de cultura. A falta de treino e o entorpecimento. As vontades materiais, o aqui e o agora, o tom imperativo e a queda à mínima contrariedade. Sem a perfeita noção do quão pequenino sou. O egocentrismo no centro do nosso espaço. Especialistas ignorantes ou absolutos desempregados. De uma forma ou de outra incompletos. Um exército disciplinado de incapacitados funcionais.

E agora a ti, a ti que foste feito como eu, a ti que te acomodas, a ti que dentro das comodidades do arranha-céus, a ti dependente e que escarras a face dos drogados, quando perceberás que eles são a outra face da tua mesma moeda?

Nuno Monteiro

Lord Byron - My soul is dark (estrofe um)

Apelidá-lo de Romântico puro seria quase demagógico por se rotular um homem cuja vivência e consciência político-sociais foram demasiado exacerbadas para o seu tempo. Ainda assim, ‘exacerbada’ não é o adjectivo ideal (dir-se-ia talvez de um Alencar queirosiano, ou, mutatis mutandi, de um João da Ega ‘trovejador’), mas será talvez o adjectivo mais fiel, pelo menos, à sua escrita.
Lord Byron, ele mesmo.
Não me apraz fazer uma análise extensiva deste seu poema, assaz merecedor de tal, mas não nego que me assolou, en passant, a vontade de dele fazer uma (talvez pretensa) anatomia, pelo menos, de acordo com o que o perpassa na oblíqua.

Tentativa de definição de ‘poesia’, é o facto de o sujeito poético o encetar na primeira pessoa (‘I’ – ‘eu’) que instaura, a priori, um pendor centralizado num ‘ego’ (freudiano, avant la lettre,) que extravasa na sua tentativa de definição de poesia. Curiosamente, e daí advém o egotismo tipicamente romântico (e inglês!), é a posposição de um verbo semi-modal e um advérbio de tempo (com uma modalidade epistémica de certeza), ‘can never’, que remete para a posse da verdade (sobre a poesia) da parte deste sujeito poético (ou até mesmo do próprio Byron), posse essa que não parece ser recebida e compreendida pelos restantes comuns mortais.
Ainda assim, insurge-se contra essa barreira de comunicação com os seus interlocutores incautos e ingénuos e tenta uma vez mais.
Podemos resumir essa tentativa a uma figura clássica da retórica, sempre inflamadora de marasmos e de uma paz superficial – a gradação.
Ora, eis a tricotomia que enforma essa gradação: ‘Passion’, ‘earthquake’, ‘fever’. É curioso notar que, do ponto de vista filosófico, nenhuma regra parece preterida, pois não se inclui o definido na definição. Antes se serve de uma estratégia, grosso modo, paradoxal: dar não uma, mas três definições e todas elas através de nomes abstractos / abstracções, o que não particulariza, antes generaliza e faz irromper um grau ainda menos coloquial de ‘dicionarização’ do conceito pioneiro, a poesia.
A verdade é que a sua estratégia é sintomática de algum elitismo e, ainda que a opacidade a consiga vedar a olhos leigos, é indubitável que acrescenta uma cosmovisão que se adequa a essa vivência tão intensa e desarrazoada dos sentimentos, por parte dos escritores Pré-Românticos e Românticos, à maneira de um Werther ou de um movimento ‘Sturm und Drang’ alemão.
Assim, à criação literária poética Lord Byron faz subjazer um sentir desenfreado, um constante terramoto de emoções e uma febre, tao bem conhecida como doença de amor. Na verdade, já a Lírica Trovadoresca tratava da ‘morte de amor’ por exposição a uma ausência constante do amado, e não é por acaso que o Romantismo bebe muitos dos seus pressupostos em Literatura em crenças medievais. Por isso, para percebermos a verdadeira acepção do ‘sentir poesia’, teremos de ser impreterivelmente leitores avisados e experientes. Só esses perceberão, por exemplo, o alcance da expressão ‘continuous earthquake’, oxímoro parafraseável do seguinte modo: Se um terramoto é um movimento circunscrito e limitado temporalmente, antepondo-lhe o adjectivo ‘contínuo’ estamos a conferir-lhe um carácter ainda mais doloroso e violento. É isso, estimados leitores, que melhor define o sentimento da poesia dentro de cada um de nós, aqueles que têm vontade de a extravasar – um estado permanente que, por ser contínuo,
a) nos faz querer, à medida de um Álvaro de Campos, ‘sentir tudo de todas as maneiras’;
b) nos faz sofrer a dor de um parto literário tão difícil e custoso, só recompensado quando vitorioso, finalmente metamorfoseado em palavras e textos.
Em suma, não será esta tentativa de definição de poesia uma tentativa mais abrangente e velada de definição da própria escrita? Fica, por agora, a interrogação, que a Retórica se encarregará de fazer agitar nas mentes de todos os que ‘ever shave themselves in such a state’...
Marina Rocha

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Le petit prince - Antoine de Saint-Exupéry


La seconde planète était habitée par um vaniteux: - Ah! Ah! Voilà la visite d’un admirateur! S’écria de loin le vaniteux dès qu’il aperçut le petit prince.
Car, pour les vaniteux, les autres hommes sont des admirateurs.
- Bonjour, dit le petit prince. Vous avez un drôle de chapeau.
- C`est pour saluer, lui répondit le vaniteux. C`est pour saluer quand on m`acclame. Malheureusement il ne passe jamais personne par ici.
- Ah oui? Dit le petit prince qui ne comprit pas.
- Frappe tes mains l`une contre l´autre, conseilla donc le vaniteux.
Le petit prince frappa ses mains l`une contre l`autre. Le vaniteux salua modestement en soulevant son chapeau.
- Ça c`est plus amusant que la visite au roi, se dit en lui-même le petit prince. Et il recommença de frapper ses mains l`une contre l`autre. Le vaniteuxrecommença de saluer en soulevant son chapeau.
Après cinq minutes d`exercice le petit prince se fatigua de la monotonie du jeu:
- Et pour que le chapeau tombe, demande-t-il, que faut-il faire?
Mais le vaniteux ne l`entendit pas. Les vaniteux n`entendent jamais que les louanges.
- Est-ce que tu m`admires vraiment beaucoup? demanda-t-il au petit prince.
- Qu`est-ce que signifie admirer?
- Admirer signifie reconnaître que je suis l`homme le plus beau, le mieux habillé, le plus riche et le plus intelligent de la planète.
- Mais tu es seul sur ta planète!
- Fais-moi ce plaisir. Admire-moi quand même!
- Je t`admire, dit le petit prince, en haussant un peu les épaules, mais en quoi cela peut-il bien t`intéresser?
Et le petit prince s`en fut.
“Les grandes personnes sont décidément bien bizarres”, se dit-il simplement en lui-même durant son voyage.

Antoine de Saint-Exupéry – Le Petit Prince

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Trova do vento que passa - Manuel Alegre


Pergunto ao vento que passa notícias do meu país e o vento cala a desgraça o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas e os rios não me sossegam levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas ai rios do meu país minha pátria à flor das águas para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas pede notícias e diz ao trevo de quatro folhas que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa por que vai de olhos no chão. Silêncio -- é tudo o que tem quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem dos rios que vão pró mar como quem ama a viagem mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) vi minha pátria florir (verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada e fale pátria em teu nome. Eu vi-te crucificada nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada só o silêncio persiste. Vi minha pátria parada à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo se notícias vou pedindo nas mãos vazias do povo vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro dos homens do meu país. Peço notícias ao vento e o vento nada me diz.
Mas há sempre uma candeia dentro da própria desgraça há sempre alguém que semeia canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste em tempo de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

My soul is Dark - Lord Byron

I can never get people to understand that poetry is the expression of excited passion, and that there is no such thing as a life of passion any more than a continuous earthquake, or an eternal fever. Besides, who would ever shave themselves in such a state?

Lord Byron, in a letter to Thomas Moore, 5 July 1821

My Soul is Dark

My soul is dark - Oh! quickly string
The harp I yet can brook to hear;
And let thy gentle fingers fling
Its melting murmurs o'er mine ear.
If in this heart a hope be dear,
That sound shall charm it forth again:
If in these eyes there lurk a tear,
'Twill flow, and cease to burn my brain.

But bid the strain be wild and deep,
Nor let thy notes of joy be first:
I tell thee, minstrel, I must weep,
Or else this heavy heart will burst;
For it hath been by sorrow nursed,
And ached in sleepless silence, long;
And now 'tis doomed to know the worst,
And break at once - or yield to song.

http://englishhistory.net/byron/poetry.html

Âncora

Dedilho e entrego-te todo o meu ouro
Na vã esperança de que me leias
Na acolhedora segurança de um porto seguro
Sempre que por dentro me sinto tão irado.

E é sempre com outros olhos
Com os olhos de um outro espelho
Com os olhos verdes com que me olhas
Sempre, para sempre esse teu olhar.

E um hino à eternidade
Uma ode ao teu sentido completo
Uma carta tão plena de vida
Um verso a mais pelo dia dos teus anos.

E tu, minha mulher, todos os meus espelhos
Todas as estradas vão dar a ti
E sempre a ti retornarei
Sempre a ti chegarei, cansado e confuso…
Depois desta vida aos solavancos, depois deste caminhar esganado, deste trinado selvagem.

Serás tu, eternamente!
Na esperança de que me leias
Na esperança de que me acolhas
Na esperança de que me abraces.

Nuno Monteiro

Ode ao meu eu servil


Sete horas da manhã e um despertador máquina inútil que me encandeia acordado estou há cerca de quatro horas aos rebolões cama adentro como se ela transposição minha estivesse condenada a uma existência servil. Sem acentuação e sem preceitos para que não perca pensamento algum. Como todos ou tantos outros milhões servis sem cheiro nem sexo. Suores frios e choros incontroláveis sempre que mais uma hora passa e minha saúde não serena muito menos que dizer de meu intelecto açaimado por todos os problemas. Ou então nada, nenhum e só as olheiras, horríveis que me vêm ao espelho e se cravam como adagas entre eu e as minhas lágrimas. Manhã tão de manhã de um dia frio e seco destes de fraca neblina, soalheiro sol da parte da tarde e o meu Marão lá longe, esquecido, quieto, sossegado, abençoado. Filho de um deus menor. Lições de infância como água para a boca. Hoje tal como será sempre, a infâmia de bramir, a infância de lutar, a infantilidade de sonhar. Hoje, como para sempre será, como um abraço fraterno, como mais um laivo de sal, um banho na estrela, um sorriso fugidio, um instante apenas. A vida. A nossa vida. O meu novo texto. Que bem me sabe. Quão sereno e concreto aqui sentado, destas teclas abusando e pássaro de mim mesmo, abismo de saudade, os meus tempos antigos, os meus livros amados, esta minha escrita em círculos. Em quantos outros textos eu já escrevi isto? Não serei eu capaz de escrever sobre algo mais, que espécie de centralidade será esta que me amarra ao poço. Que desapego este que me faz parecer distante, que sentido de comiseração, que desamor próprio, que alegria em escrever, que povoa em mim tudo quanto não tenho, tudo quanto é medo, todos os meus futuros aqui reunidos. Quantas estradas bifurcam daqui deste meu espaço de paupérrimo elixir.
Hoje acordei tão cedo que em quatro horas repassei toda a minha vida e graças a deus por esta máquina tão prodigiosa que adivinha o futuro e trespassa o passado por entre um banho de lágrimas quentes e doces das minhas tantas outras vidas que poderiam ter sido. Pois é. A minha vida é este momento e como não sou herói, nem sei por que sofro, nem sei que estrada tomar, luzes passam velozes por mim como se eu perdido na escuridão do poço. Não passo de um pequenino palhaço que imensamente feliz fica quando consegue arrancar um sorriso às faces dos outros, os outros iguais, os meus camaradas, os outros tantos eu, vidas sombrias e cinzentas inglórias outros anti-heróis, outros brâmanes incandescentes, trespassados por olheiras, olheiras dos tormentos, lamentos como insónias, insónias de chumbo agarradas aos pequenos nadas, pequenos nadas como os palhaços – da minha instrução primária recordo-me de uma vez me terem dito que os palhaços são os heróis maiores desta que é a nossa vida. Porquê? porque são os que fazem rir e haverá algo mais importante que conseguir fazer rir, haverá presente maior que um sorriso profundo e vincado. Porque a vida deveria ser para rir, a vida deveria ser para a consagração, todos nós deveríamos nascer para ser felizes. que espécie de ente então nos regula para o sacrifício e para as noites mal dormidas?
Se cheguei a conclusão alguma. Invariavelmente não. O mais que posso é sentar e escrever. E recordar meus pais que me deram a infância. Ou olhar lá fora o céu azul e o Marão ao fundo do pano. Como gigante valente que dá comigo a pensar se algum homem tão forte assim como ele se poderá afirmar. Quem se dá ao trabalho de ser sagrado como as rochas desse monstro que é a serra lá de cima das nuvens. Quem quererá ser assim tão rude. Recrio uma vez mais a minha infância e os momentos de felicidade. E enquanto isso escrevo porque me faz sentir bem. escrevo porque a escrita me ilumina, me inunda e ela é para mim como algum láudano que me atordoa e me desperta. Ela é para mim a fortaleza inexpugnável. É o reino da justiça e da compreensão, é terreno fértil em sorrisos e heróis, é encontros e amores, serenidade de justiça, ausência de pobreza e cordialidade no trato. Um rebuçado a cada novo menino. E uma foto à estampada de alegria. A cara. O sorriso. O palhaço. O belo e sublime. Para que o humanitarismo não seja um credo inútil.
E agora que já disse tudo agora que já escrevi tudo quanto sabia estico um pouquinho mais este ofício, na ânsia de mais alguns minutos de prazer, na ânsia DE UM POUCO MAIS DE AZUL, NA SOFREGUIDÃO DE ALGUM OXIGÉNIO. DE SEGUIDA O FUNDO DO POÇO, O FUNDO DA VIDA E DE NOVO ESSA MALDITA QUE PERVERTE E ENGANA QUE ME OBRIGA A CALAR, QUE REPETE CONSTANTEMENTE QUE NÃO SOU POETA, QUE NÃO SOU POETA, QUE NÃO ÉS POETA, QUE NÃO ÉS POETA, não és poeta, não és poeta, não és poeta, como uma corrente infinda de cinzento e bafio.
Um último apontamento para berrar aos ventos que sou teimoso como uma mula, sou teimoso como uma mula, sou teimoso como uma mula e que tu não me vences, que tu não me vences, que tu não me vergas, que tu não me calas.

Nuno Monteiro

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Dignity - Bob Dylan


Fat man lookin' in a blade of steelThin man lookin' at his last mealHollow man lookin' in a cottonfieldFor dignity
Wise man lookin' in a blade of grassYoung man lookin' in the shadows that passPoor man lookin' through painted glassFor dignity
Somebody got murdered on New Year's EveSomebody said dignity was the first to leaveI went into the city, went into the townWent into the land of the midnight sun
Searchin' high, searchin' lowSearchin' everywhere I knowAskin' the cops wherever I goHave you seen dignity?
Blind man breakin' out of a trancePuts both his hands in the pockets of chanceHopin' to find one circumstanceOf dignity
I went to the wedding of Mary-louShe said
Bob Dylan - lyrics

Cântico Negro - José Régio


"Vem por aqui" --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--- Sei que não vou por aí.

José Régio

De um dia na vida de Ivan Denisovich


…Shukov adormeceu completamente satisfeito, feliz. Fora bafejado por vários golpes de sorte durante aquele dia : não o haviam posto no xadrez; não tinham enviado a brigada para o Centro; surripiara uma tigela de Kasha ao almoço; o chefe da brigada fixara bem as rações; construíra uma parede e tirara prazer do seu trabalho; arranjara aquele pedaço de metal e conseguira passá-lo; recebera qualquer coisa de Tsezar, à noite; comprara o tabaco. E não caíra doente.
Um dia sem uma nuvem carregada, sombria. Quase um dia feliz.

Contava já no seu activo três mil seiscentos e cinquenta e três dias como este. Desde o primeiro até ao último toque na barra de carril.
Os três dias suplementares pertenciam a anos bissextos.

Um dia na vida de Ivan Denisovich, Aleksander Solzhenitsyn

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Liberdade - Bocage




Liberdade querida, e suspirada,
Que o despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada!

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada;

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha;

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce liberdade!

Liberdade, Manuel Maria Barbosa du Bocage

Da Morte de Ivan Ilitch


… Ivan Ilitch era colega dos senhores ali reunidos e todos gostavam dele. Doente há várias semanas, dizia-se que a sua doença era incurável. O seu lugar continuava reservado, mas havia a ideia de que no caso da sua morte, Alekséiev poderia ser nomeado para o seu lugar e Vínnikov ou Stábel para o lugar de Alekséiev. Por isso, ao ouvir falar da morte de Ivan Ilitch, o primeiro pensamento de cada um daqueles senhores reunidos no gabinete foi sobre a importância que essa morte poderia ter para a mudança ou promoção deles próprios ou dos seus conhecidos.
“Agora vou provavelmente ficar com o lugar de Stábel ou de Vínnikov – pensou Fiódor Vassilievitch. – Já me foi prometido há muito tempo, e a sua promoção representa para mim um aumento de oitocentos rublos, além do subsídio….

Excerto retirado da obra “A morte e Ivan Ilitch – Lev Tolstoi - Booket - Publicações Dom Quixote

Sobre o excerto e sobre a obra que também convido a ler eu só tenho vontade de dizer o seguinte , dirigindo-me de chofre a quem a escreveu – com que serenidade escreves tu sobre a pobre condição do homem e com que deslumbramento envolto em culpa alguns a encontram ao virar da esquina…

Nuno Monteiro

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O infinito do ser


Busca, aspira o infinito do ser...
Vê e sente, acredita no sempre...
Longínqua essa paragem,
Dura a miragem do nunca inexistente mas persistente, no caminho
Percorrido pela alma forte, vestida e, de repente, despedida pelo sofrimento do Momento inalcançável, no precipício abominável do início do fim,
Que não chegou a começar...
Passagens escritas, profecias guardadas, temidas!
Decadência pressagiada,
Sonhos protegidos,
Vontade encadeada pela luz forte da fé!...
Pecados surpreendidos no silêncio
Do pensamento obscuro e receoso, que restringe o corpo ansioso.
Ambição de revestir o coração além da carne
E do ensinamento penoso de não poder sobrevoar a 'morte'!
E eis que surgem as certezas incertas de nada saber...
Procura ansiosa do controlo da vida que se está a perder...
Temerosa essa imagem holocáustica,
Vislumbrada sistematicamente,
Denunciando o medo de punição de que a humanidade está ciente.
Gasto o simbolismo efémero que tenta omitir erros,
Mórbido o sentimento de culpa de não poder...
Sonhos catapultados para o longínquo da ilusão,
Numa esperança insultuosa de tão forte ser...
E novamente a lenda insinuosa
Que perde toda a validade face à supremacia do sentimento,
Que tenta, experimenta e consegue o impossível de
Fortalecer um ser susceptível a toda a fraqueza escondida,
Guarnecida de terrores que procuram os sonhos perdidos
Pela ameaça da proximidade do que parecia jamais ser alcançado
E que demonstra que o Amor não poderá sair derrotado.

Este sou Eu? E vocês, o que vêem?

Sérgio Morais

A Pérola - John Steinbeck


...A TOWN is a thing like a colonial animal. A town has a nervous system and a head and shoulders and feet. A town is a thing separate from all other tows, so that there are no two towns alike. And a town has a whole emotion. How news travels through a town is a mystery not easily to be solved. News seems to move faster than small boys came scramble and dart to tell it, faster than women can call it over the fences.
Before Kino and Juana and the other fishers had come to Kino’s brush house, the nerves of the town were pulsing and vibrating with the news – Kino had found the Pearl of the world...

Excerto da obra “A pérola” – John Steinbeck – Penguin Book

As notícias correram e correram velozmente como todas as muito boas notícias ou as tristes ou muito tristes. E eu tenho muita dificuldade em afirmar se a descoberta daquela enorme pérola, aquela enorme fortuna, anunciada com tanta flama, sentida com toda a garra, foi, enfim, algo de muito bom ou algo de muito mau. Sob a perspectiva de Steinbeck, foi algo de muito mau, conforme facilmente se depreende do resto da leitura. Uma leitura veloz e corrida como o vento, uma leitura ao mesmo tempo fácil e entusiasmante. Aqui fica a sugestão de um belíssimo livro, um conto que celebra a coragem e a sagacidade das famílias ordinárias.

Nuno Monteiro

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O escritor e a escrita



Quem me explicará como se escreve bem? Quem me dirá como se retrata o belo? Porque há o lírio e as papoilas do campo e essas são belas. Mas também há a terra e o mar que são lugares imensamente belos. Então e a silhueta de um veleiro de velas enfunadas na manhã clara e calma de um dia de primavera. Belo também. E as palavras escolhidas com tanto labor, e as palavras cozidas como se fossem teares e os tapetes de Arraiolos. Ou os tapetes de flores do Alentejo. A literatura é belíssima. O acto de leitura é de uma serenidade e de uma sinceridade belíssimas. E os textos mais simples são tão bonitos.
Senti-o que voa de planeta em planeta para se descobrir a si próprio; atraiçoai o infeliz momento em que Coyotito morreu ou sede capaz de sentar na esteira de espuma da Isla Negra, percorrei as entranhas da vida esconjurada na selva até dardes de cara com esses olhos malditos desse demente ou deixai que o frémito da paixão vos arrebata quando se aperceberem que Carlos e Eduarda não são senão irmãos.
O que são para mim os livros? Representações de tantos belos alternativos como se todos juntos fossem os nossos guardiães da vida. São ferramentas de cirurgião que nos rearranjam por dentro e que nos impelem a seguir em frente. São calmantes para os hipertensos e são setas de venenos correctores que nos assolam o espírito e que promovem mudanças. Quem disse que se aprende com a vida? Aprendo com os livros que leio, porque os livros valem mais que a vida. Porque o âmago de um livro encerra sinceridade, ternura e compaixão e esses não encontro em mais lugar algum. Por isso mesmo o livro é belo. Desde que esteja realmente bem escrito.
Daí que eu volte à questão inicial. Como se escreverá um belo livro? Não pode ser feito com base numa fabulação de uma sociedade. Porque infelizmente nós não estamos rodeados por Camelot nem eu alguma vez terei visto alguma Távola Redonda. Por mais que a queiram imaginar tentai explicar o conceito aos esfomeados do nosso país. Deverá, pelo contrário mostrar sinceridade e explorar o hiper-realismo que despoletará no leitor a apreensão e a vergonha. Daí que os livros precisem versar o espírito humano. E o que faz o homem quando é contrariado? Repensa-se e reorganiza-se.
Mas o livro tem que ser mais que sinceridade. Também deve ser tensão. Também deve ser mágoa. Tem que encerrar arrependimento. Não poderá nunca ser de outra forma porque o escritor é um escolhido. Escolhido como um condenado por todos os males que os outros ou ele próprio fizeram. E a sua única forma de remissão é a compartilha nua e crua e sincera e mágoa. Então a literatura passa a ser uma forma alternativa de prisão como se o escritor fosse ao mesmo tempo preso e libertador, sob ele impenderá sempre a faca da atrocidade e a ele caberá sempre denunciá-la e degradar o mal. Como um paliativo para o sofrimento. Mas o que mais sofre. O sofredor que entrega aos outros calma e serenidade em forma de libertação. Eis a encarnação do altruísmo. Daí que a literatura seja bela. E toda a escrita é bela desde que dissolva o sofrimento. Como os lírios do campo ou as montanhas na sua quietude ou ainda os mares salgados e os ventos e as borrascas.


Nuno Monteiro

Pensées d’un biologiste - Miguel Torga



Coimbra, 14 de Agosto de 1941 – Novamente Pensées d’un biologiste. Uma espécie de tentação do criminoso para voltar ao local do crime. Lá diz ele:
“L’homme est entraîné par son esprit à des souffrances qui sont bien au-dessus de sa condition.”
Outra vez a vida medida de cima a baixo, o ser pesado do corpo à alma. Quantas vezes o nosso coração é capaz de bater, que filhos a nossa esperança pode gerar – a fotografia é autêntica das nossas raízes, que são as mesmas do nosso pai da idade de Cro-Magnon.
“La civilisation de l’homme ne reside pás dans l’homme, elle est dans les bibliothéques, dans les musées et dans les codes.”
Um desespero humano da biologia. Com a diferença apenas de o Kierkegaard pôr a desgraça no “eu” e de Rostand a pôr em vinte e quatro cromossomas.

In Diário I, Miguel Torga

domingo, 12 de outubro de 2008

Ecos de Paris - Eça de Queirós


Um amigo meu, viajando em Inglaterra, parou num hotel, e, depois de instalado e barbeado, desceu a almoçar…. Percorreu pensativamente a lista dos vinhos, e perguntou ao criado, com a tradicional e humana ingenuidade:
- É bom este Chablis?
O criado, um velho de suíças brancas, grave e um pouco triste como um embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu secamente:
-É uma peste.
O meu amigo considerou com espanto, e um espanto desagradável, aquele homem verídico. Depois repercorreu a lista.
-Bem, traga-me então deste Médoc… É bom, o Médoc?
O criado, muito sério, replicou:
-É horrível.
Perturbado, o meu amigo murmurou timidamente, numa desconfiança vaga e escura que o invadia:
-Bem, beberei cerveja…Que tal a cerveja?
O criado volveu, convencido e digno:
-Droga muito medíocre…Extremamente medíocre!
O meu amigo tremia já, num positivo terror. Mas ainda balbuciou:
-Que hei-de eu então beber?
-Beba água, ou beba chá…ainda que o chá que agora temos é realmente detestável.
Então o meu amigo repeliu violentamente guardanapo e talher, galgou as escadas do seu quarto, reafivelou as correias da sua maleta, saltou para uma tipóia e fugiu.
Porquê? Nem ele sabia. Tudo quanto me pôde explicar é que, perante tanta sinceridade, perante tanta veracidade, ele sentiu em torno de si, naquele hotel, alguma coisa de anormal, de extravagante, de perigoso. E o acto do meu amigo, dado o nosso secular hábito da mentira, da ficção, da convenção – é bem humano.

Eça de Queirós, in Ecos de Paris, capítulo XV.

Ciências sociais e humanas


“A cultura não é um mero suplemento de que usufruem as sociedades humanas por contraste com as sociedades animais. É ela que institui as regras–normas que organizam a sociedade e governam os comportamentos dos indivíduos; constitui o capital colectivo dos conhecimentos adquiridos, dos saberes práticos aprendidos, das expectativas vividas, da memória histórico-mítica, da própria identidade de uma sociedade.”

Edgar Morin, “Para uma sociologia do conhecimento”

Da revista Única, Expresso 1876 11 de Outubro de 2008

Vivemos numa época de esquizofrenia, com um pé no hoje, e até, nalguns casos, vivemos com um pé no amanhã, e o outro pé ficou atrás.(Saramago)

Na idade média.(Pilar)

Exactamente. Nós somos assim, doentes e não fazemos nada. Faz-se tudo para curar as doenças que sobrevêm à doença de origem, mas muito pouco para enfrentar essa doença de origem. Se não parecesse pretensioso com isto…mas enfim, atrevo-me a dizê-lo: acho que na sociedade actual falta-nos filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência. Falta-nos reflexão, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma. (Saramago)


Obrigado Saramago por te atreveres. Até quando será preciso atrevimento para se poderem dizer as verdades fundamentais?

E já agora, será ou não esta esquizofrenia o resultado sombrio de uma sociedade sem identidade que nunca tratou da raíz ético-cultural dos seus por ter tanto descurado a educação? Fica a questão.
Nuno Monteiro

"Magritte at Pistol River" Robert Taylor

Das aventuras de Ngunga



Que vais fazer? – perguntou Uassamba.
- Vou para uma escola.
Calaram-se. As palavras não tinham significado, Ngunga sempre desconfiara das palavras. Sobretudo em certos momentos.



Uassamba pensou, pensou, apertando-lhe a mão. Encostou a boca ao ouvido dele e pronunciou uma palavra. Mas fê-lo tão baixinho que o barulho da chinjanguila a cobriu e só Ngunga pôde perceber. Nem as árvores, nem as borboletas nocturnas, nem os pássaros adormecidos, nem mesmo o vento fraquinho, puderam ouvir para depois nos dizer.
Ngunga só se despediu de Mavinga. Explicou-lhe porque queria ir secretamente. Pediu-lhe para não contar a ninguém onde ia a e não voltar a falar de Ngunga, que tinha morrido nessa noite inesquecível. E não revelou o seu novo nome ao comandante.
Partiu sozinho para a escola.
Um homem novo tinha nascido dentro do pequeno Ngunga.


As aventuras de Ngunga – Pepetela

Vinte e oito pequeninos capítulos da Biblioteca de bolso da Dom Quixote, 166 páginas onde tão facilmente é contada a história do pequeno Ngunga, um menino soldado em plena Guerra Colonial que percebeu o quão importante é a escola e que por isso desapareceu com uma despedida breve ao comandante Mavinga.
Quantos alunos nossos deviam ler este livro, quantos alunos adultos grandes deste país deveriam ler mais. Quantos homens novos assim se não formariam.
Uma magnífica lição de cidadania. Aqui fica o repto…

Nuno Monteiro

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Keeping distance to be close - Paula Rego

Medo


Medo
Temor de falar e perder o emprego e os filhos e o olhar de reprovação
Medo de falar e não acertar com as palavras
De que queres tu falar se está tudo dito e ninguém te quer ouvir
Medo de ficar sozinho

Habituem-se colegas, habitua-te filho
Perdeste a fé e hoje vagueias como um penado
E procuras subsídios e provas o sabor dos ácidos
Medo do inferno, medo da morte, medo da rejeição, medo e ainda outra vez medo

Temor, tremor, suor, insónia, acordado no meio da noite encharcado em dúvidas que sabes nada te são.
Saudades do tempo em que era criança
Peter Pan, o rapazinho das eternas asas
A linha de sombra e o teu instante de deslumbramento, a tua vida adulta e o teu inferno privado
Saudades do tempo passado e das correntes de ternura

Medo, o retorno à falta de razão…
Nada pode ser menos verdadeiro que as tuas lágrimas
Até estas minhas linhas que aqui deixo para eu as ler
Na certeza de que de tão pouco servirão
Na absoluta sinceridade de uma ligeira consternação
Correntes e camisas num hospital psiquiátrico…

E tantos outros adensados, faces fechadas, sorrisos trémulos em cinzento de chuva
Frio, pobreza, um homem pedindo à entrada do metro
Gárgulas de insensatez, os berros da incompreensão
Falta de sentido, há quantos minutos não sonho

Cavalheiros!
Em mim habitam saudades
Dos meus antigos instantes de satisfação
Em mim habitam todos os poços
Como precipícios, como morte, como suicídio.

E uma vez mais o medo, que bate à porta de mansinho…

Nuno Monteiro

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Captain! My Captain! by Walt Whitman


O CAPTAIN! my Captain! our fearful trip is done;
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won;
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring:
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up-for you the flag is flung-for you the bugle trills;
For you bouquets and ribbon'd wreaths-for you the shores a-crowding;
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head;
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip, the victor ship, comes in with object won;
Exult, O shores, and ring, O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

Barrow-on-furness


Sou vil, sou reles, como toda a gente,
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.

É com a imaginação que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
Ébrio, por intervalos, de um Além.

Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo e leio.

Justificar-me? Sou quem todos são…
Modificar-me? Para meu igual?...
-Acaba lá com isso, ó coração!

Poesia de Álvaro de Campos – Editora Planeta de Agostini

…Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada … entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo porém liso e normalmente apartado ao lado, monóculo.

(De uma carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Noite Pura


Os ameados terraços brancos recortam-se secamente sobre o alegre céu azul, gélido e estrelado. O norte silencioso acaricia, vivo, com a sua pura grandeza.

Todos julgam que tem frio e escondem-se nas casas, fechando-as. Nós, Platero, vamos devagar, tu com a tua lã e com a minha manta, eu com a minha alma, pela límpida aldeia solitária.
Que força interior me eleva, como se eu fosse uma torre de pedra tosca com cúpula de prata! Olha, quantas estrelas! De tantas que são, dão-nos tonturas. Dir-se-ia que o céu reza à terra um rosário aceso de amor ideal.
Platero, Platero! Daria toda a minha vida e ansiaria que tu quisesses dar a tua, pela pureza desta alta noite de Janeiro, erma, clara e dura!

Platero e Eu, Juan Jamón Jimenez

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A Lisboa da minha infância


Sonho e poesia, baladas e cafés
Tão breves linhas etéreas
Do nada se tenta dizer tudo e eu só, contigo e com a chuva
Soluto, surpreso, eu canto, eu sou apenas eu

Um único gorgulho, inseguro, inglório, sorrateiro
Gotinha de chuva, bairro da Madragoa
Ao fundo o triste fado e eu dissolvido nesses langores
Perdido olhando o Tejo e hesitando soletrando ameaças

Ao vento e aos gárgulas que com asas de anjo
São estupro, fraude e infâmia
Um só canto, uma só arma, a minha pequenina praça
A minha cantiga e este texto que é também teu

Sai, amiga desconhecida, sai e avança caminhando
Seremos chuva que nos dissolvamos
Marcaremos as pedras os ferros e a bandeira
Corrijamos o rumo desta nossa tão triste barcaça.

Peço apenas mais um pouco de atenção e
teus olhos escuros me mirando
tua pele tisnada rindo contente ante o palhaço que jaz em mim
teus cabelos negros apanhados figura mãe de uma nova nação

Terás que ser tu, pequena lisboeta, alvoroçando bandeiras e atiçando faúlhas
Tu e a minha angústia numa luta incessante por todos os pobres
Todos os abandonos
Sempre imersos em insónia
Por isso poesia, ténues linhas contra toda uma armada
A figura da mãe, a figura estarrecida, a mulher ardina, tão cansada e assustada
Ao fim da estrada parando e sonhando, sonho e fogo, alma e revolução.

Nuno Monteiro

Pablo



Tem automóvel, uísque, jornais,
Elegem-no juiz e deputado,
Condecoram-no, é ministro,
E é ouvido no Governo.
Ele sabe quem é subornável.
Ele sabe quem é subornado.
Ele lambe, incensa, condecora,
Adula, sorri, ameaça.
E assim se esvaziam pelos portos
As repúblicas exangues

José Cardoso Pires bramava “República dos corvos” pejada de clones cornetas.

Onde vive, perguntareis,
este vírus, este advogado,
este fermento dos dejectos,
este nojento piolho sanguíneo,
que engorda com o nosso sangue?



E morre glorioso, “o patriota”
Senador, o patrício eminente,
Condecorado pelo Papa,
ilustre, próspero, temido,
enquanto a trágica raça
dos nossos mortos, os que mergulharam
a mão no cobre, arranharam
a terra profunda e severa,
morrem humilhados e esquecidos
metidos à pressa
nos seus caixões fúnebres:
um nome e um número na cruz
que o vento sacode…

Pablo Neruda in Canto Geral do Chile

Encontro-me, igual a mim próprio e quase como sempre, à soleira da minha casa da minha “Isla Negra”
-quantas saudades tuas Neruda!
falando com ninguém ensandecido pela brisa de mar e acabrunhado com os laivos de vinho que partilho com as ondas que na sua suave rebentação me recordam a vida
-ou antes as voltas e reviravoltas da vida de nós todos
dos que morreram de pé, dos atraiçoados, dos íntegros e puros e então, na esteira desses desejados absorvo os ares e os odores deste oceano de azul
-tens os teus livros que te não deixam calar Neruda!
imóvel e absorto nos meus livros que são os meus heróis e de costas voltadas para o mundo, de olhos e todos os sentidos alerta mas na negação, alerta mas sempre negando, alerta para poder negar criticando, e alerta construindo, construindo dependências de mim e assim lutando sozinho, assim berrando ao vento e a plenos pulmões com ira e cólera,
e não me atreveria a invocar Neruda não fosse ele estar aqui comigo!
quão acolhedoras estas manhãs de nevoeiro, aqui à soleira da porta e entrelaçando a minha visão entre o mar e os livros, entre os livros e o grande oceano, entre os livros e a parte bela do mundo, este azul da cor dos pensamentos livres, ora da cor do céu ora ambiente fechado cinzento da palidez da tua camisa, mas sem violência, sem consternação, livre de angústia, sem mentira, sem alienação, sem terceiras leituras, num discurso directo, num discurso autêntico, num sôfrego pesar.
Encontro-me, igual a mim próprio e quase como sempre, à soleira da minha casa da minha “Isla Negra”
-sinto saudades tuas dos livros teus que me obrigaste a ler
E atrás de mim jaz inerte a minha vida vazia e os meus anos de vácuo, como se tivessem sido portas fechadas e mentes desfeitas, como se tivesse sido trabalho em vão, longe dos meus longe dos sonhos, silvo agudo vermelho do sangue dorido de chamada incessante e podres caminhos, desvarios e mentiras e alguns poucos sorrisos, tão poucos sorrisos autênticos que polvilham a humanidade de uma ténue linha de esperança mas logo os abutres logo esses ignóbeis que lhe estragam a face e a povoam de nuvens, a incomodam no seu sentir, a impedem de singrar e a obrigam a calar.
- é hoje como foi contigo Neruda
E o mundo avança como a rebentação aqui a meus pés, em pequeninos círculos de uma sucessão de iguais e os pobres são os mesmos, novos nomes para os mesmos caminhos, novas roupagens para as mesmas privações, novas armadilhas para as mesmas ditaduras e tal como então, uma humanidade à beira da perdição e tantos escravos que não sabem sequer que o são, tantos inocentes ostracizados, tantas mentes vazias, todos operários aterrorizados e toda a mesquinhez, todo o canibalismo num desejo de poder que não é senão derrota todo o sentir feito depender da condenação de milhões, o homem predador de si próprio.
-não desaparecerás porque o teu canto viverá para sempre.
Porque tu captaste num instante o sentido inglório da vida dos homens e soubeste sempre que a humanidade não existe, que a solidariedade não existe, que a compreensão e a ternura são miragens mas ainda assim foste tu que te referiste aos mais fracos e foste gigante nos teus caminhos clandestinos, nas tuas tiragens foragidas, foste leme de uma revolução, foste âncora de sentido.
São os poucos sorrisos da incompreensão diária, são os tantos solavancos da cegueira e do absolutismo, são os amuos da derrota nos olhos do iletrado, ou os instantes capitais de uma longínqua execução, mais uma, uma entre tantas, mais uma execução tão arbitrária, a humanidade fenestrada necrosada num suave lamento de uma guilhotina besuntada de sangue. Mais um louco morto. Outro cadáver recente mais um bando de abutres que singram em voo de auto contemplação e nós, nós no dia a dia das nossas pequeninas casas, nós no dia a dia das nossas pequeninas decepções, nós olhando em frente ante o vazio cinzento escuro das tempestades com trovões estilhaçados por milhões de pequenos nadas da incompreensão dos homens.
-não sei onde viste tu a compreensão dos homens Pablo!
-não sei onde tu viste a compreensão dos homens!
Do sítio onde estou, que não é a tua “isla” embora guarde o teu canto, sinto que desfilam os ecos do fim e a chegada da morte, sinto-o nas fortunas de poucos e nas acções dos novos loucos, sinto-o no viver frenético de uma movimentação de manada e no estado providência dilacerado dos médicos que não tenho, na falta de tempo dos que não têm filhos, na falta de leite dos que já nasceram condenados, nas montanhas aldeias lá longe abandonadas e em todas as instituições que não nos poupam loucos mortos.
Almas mortas, espectros produtores e números estatísticas e egoísmo, números estatísticas e tratados, cimeiras e conferências e papéis, papéis e mais papéis, inválidos e inócuos porque deixaram o estado mais refém. Deixaram o estado mais refém e querem fazê-lo ainda mais refém. É a desconstrução da vida tijolo a tijolo, pedra a pedra. E então, então assim, se assim para sempre, para quando o fim do homem?
Até este mar azul imenso que tenho em minha frente. Até este oceano de antigas virtudes e até as fortalezas inexpugnáveis, até neste imenso azul paira a suspeita de corrupção. Dançam, em todos os palcos da vida, fortes e incansáveis, indestrutíveis os pecados capitais. Todos enfileirados como se do hino se tratasse. A nação infecta e doente, a nação esquartejada e em quarentena. E um outro Adamastor se levanta, um outro gigante se interpõe, uma nova Orão se congemina ventre da Peste adaga da dor. Camus e os doentes ?, o religioso e as dúvidas ?, o contrabando e as fortunas ?, a cada homem a sua culpa , cada um com seu caminho.
Mais um louco morto. Ébrio julgo impossível que um tubarão se aproxime da costa e regurgite a cabeça sorridente de uma pequena miúda. Mas olhai que não, olhai que não e um após o outro eles chegam penitentes e regurgitam cabeças como se pedissem que se lhes desse um funeral. O cúmulo do cinismo e a maior das fraquezas.




















Serra da Estrela - cheio de vontade de lá voltar para calcorrear todos aqueles caminhos e demorar-me por lá eternamente.

O mundo dos menos livres


“Sim, o trabalho havia de pedir contas ao capital, a esse Deus impessoal, desconhecido do operário, escondido ninguém sabia aonde, no mistério do seu tabernáculo, onde sugava a vida aos famintos que o nutriam. Lá iriam, haviam de lhe ver enfim a cara ao clarão dos incêndios, afogá-lo em sangue, a esse porco imundo, a esse monstruoso ídolo enfartado de carne humana.

Aos raios inflamados do astro, por aquela manhã de juventude, era daquele rumor que a campina estava grávida. Surgiam homens; um exército negro, vingador, que germinava lentamente nos alqueives, nascendo para as colheitas do século futuro, e cuja germinação não tardaria fazer estoirar a terra.”

Émile Zola, Germinal

Sobre este excerto, este excerto desse tão grande texto, eu, enfiado num mundo em crise e acorrentado como um criminoso em seio de homens justos, eu, sentindo acirrar sobre mim as nuvens do desassossego, eu, trabalhador e assalariado, do fundo deste poço desta minha tão parca condição julgo apropriado berrar:
-Reinvente-se o mundo e atribuam importância às pessoas, surjam estadistas, surjam heróis, visionários.
Dezenas de anos depois o mundo está perfeitamente na mesma.
Comece-se pela educação! Mostre-se o mundo às gerações vindouras pelo prisma apuradíssimo dos grandes escritores – talvez dos únicos altares que nos restem.


Nuno Monteiro

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

3 poemas - Jorge Luis Borges



O sul
De um dos pátios ter olhado as antigas estrelas, do banco da sombra ter olhado essas luzes dispersas que minha ignorância não aprendeu a nomear nem a ordenar em constelações, ter sentido o círculo da água na secreta cisterna, o odor do jasmim e da madressilva, o silêncio do pássaro adormecido, o arco do saguão, a humidade-essas coisas são, talvez, o poema.

Limites

Há uma linha de Verlaine que tornarei a recordar, Há uma rua próxima que está vedada a meus passos, Há um espelho que me viu pela última vez, Há uma porta que fechei até o fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou vendo-os) Há algum que já nunca abrirei.
Este ano completarei cinquenta anos; A morte me desgasta, incessante.

Os justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra haja música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade. Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram. O que agradece que na terra haja Stevenson. O que prefere que os outros tenham razão. Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo

Jorge Luís Borges

Um Reino Maravilhoso - Trás-os-Montes


Vou falar-lhes dum reino maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite.

Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo…. De repente, rasga a espessura do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:
-Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...
Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou?...
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico porque o nume invisível ordena:
-Entre!
A gente entra e já está no Reino Maravilhoso.

O meu Trás-os-Montes, minha terceira terra, são as veigas e as penedias, são os carreiros de cabras e os caminhos das linhas de água, são as serras e a urze, o amargo do inverno e o inferno de calor. Pulso de vida ao ler este texto de Miguel Torga. Da mesma forma pulso de vida ao olhar os cumes graníticos de Arnal ou ao contemplar cedinho na manhã o nosso majestoso Marão. Que serra belíssima, que paraíso contido, que acendalhas brutas e indomáveis, são pedras que ganham forma de pessoas, altaneiras, majestáticas, telúricas, ricas, ríspidas, verdadeiras. Sobretudo verdadeiras.

Excerto de Portugal, Miguel Torga. Pobres comentários meus após quinze anos de permanência.

Obrigado National Geographic! Algures nos EUA

domingo, 5 de outubro de 2008

O Barão - Branquinho da Fonseca



O Barão ergueu-se, fitou-me e disse, de repente triste:
- Vamos beber por uma mulher.
Levantei-me também. Foi ao tal armário e trouxe uma garrafa de champanhe. Berrou:
-Taças!

E ergueu a taça que transbordava.

A que mulher?
- À única!

Mais tarde tive notícias dele. Mandava-me dizer que lá me esperava.
Sim, Barão!... Hei-de voltar, um dia. E havemos de tornar a perder-nos pelos caminhos sombrios do nosso sonho e da nossa loucura; e mais uma vez havemos de cantar às estrelas, e dar a vida para ires depor outro botão de rosa lá na alta janela da tua Bela - Adormecida!...

O Barão, Branquinho da Fonseca

Da serra do Barroso, com um sentido telúrico possante, um conto maravilhoso, para que ninguém fique recostado sem o conhecer.

Olhos verdes

Tua pele
Minha cruzada
Todo insensato
Ainda mais que palavras, um monte
Vento, matilha, saudade, afago
Ainda e sempre o meu ocaso feliz, minha arca de Noé

A raiz da minha alma, o meu todo vapor
Navegam incólumes as montanhas da minha alma
Como se fossem penedos, como se fossem gaivotas
Como tu minha estrela, como tu minha guia, alvor nítida luz

E eu, aqui, surpreso, confesso, humilde
Terra, milhafres, penedos, a ti
A ti, minha alforreca, a ti minha pequena lua, nas noites de madrugada
Em que deitados, olhando saudosos, cruzamos os mares e no fundo de um abraço

Eu me encontro, todo, teu,
Tu, tua, minha
Amor
Amor,
Ainda mais que palavras, um altar
Ainda mais que tudo
Minha trémula justiça
Minha surpresa de azul
Oceano de encanto e num clímax de beatitude
Eu e tu explodimos num coito infinito debruado de colinas, searas e brisa, da cor das flores, da alvura do eterno, nos cheiros dos carvalhos.

Nuno Monteiro

O Povo



O povo passeava as suas bandeiras rubras
e estive no meio deles, na pedra que tocavam,
na jornada fragorosa
e nas altas canções da luta.
Vi como iam de conquista em conquista.
Só a sua resistência era caminho
e, isolados, eram como estilhaços
duma estrela, sem boca e sem brilho.
Juntos, na unidade feita silêncio,
eram o fogo, o canto indestrutível,
a lenta passagem do homem sobre a terra,
feito profundidades e batalhas.
Eram a dignidade que combatia
o que fora espezinhado, e despertava,
como um sistema, a ordem das vidas
que batiam à porta e se sentavam
com as suas bandeiras na sala central.

In Canto Geral, Capítulo XI – As flores de Punitaqui, Pablo Neruda, tradução de Albano Martins, Campo das Letras.

Dinis Machado (1930 - 2008)




«Não estás quieto, Maynard, tens um bichinho dentro de ti, ou então é a febre, a que tens no corpo, e todas as outras febres, as de descobrires coisas que não devias descobrir porque te fazem mal, porque afinal tu és pura e simplesmente o tal rapazinho que nunca deixaste de ser, trémulo perante as coisas, eternamente desabituado de olhar a verdade de frente, e agora já velho, de cidade para cidade, olhando as paisagens que encontras quando te voltas para dentro, os lugares mais desabitados do mundo atrás dos teus olhos fechados. Merda para isto, a febre há-de passar, e então tudo será mais simples, isso de te sentires desgraçado é muito menos profundo do que parece, de resto até acho que resolvo o assunto numa penada e nunca mais penso nisso. Que esperas tu das pessoas, Maynard? Olha para ti próprio e vê lá o que vês. Não olhes, rapaz, não penses nisso, assobia, olha para as pernas das garotas, limpa a arma e segue em frente.»

O autor deste blogue agradece ao Bibliotecário de Babel.

Ao autor de “O que Diz Molero” agora com saudades, ainda e sempre a inquietar, há tanto de Maynard em mim…

Nuno Monteiro

Republicanos


O5 de Outubro, dia da implantação e a hora é a hora da tarde, ainda na esteira das imagens das comemorações na praça do município. Quase cem anos após a queda da monarquia. Ainda com todos aqueles fatos na minha memória e com a noção tão quente quão inquietante de que todo o feriado é uma mentira e de que toda esta república de certa forma nunca foi, nunca se impôs, praça vazia, um punhado de soldados de chumbo e os engalanados do costume, os economistas, os habituados da política, as poltronas vermelhas e dois ou três fatos cinzentos gala impura das nossas queridíssimas forças armadas.
Sua excelência o presidente boca seca e modos hirtos à vontade soletrando lições de economia, planos de acção, o estado da educação, o estado cultural do país, a balança externa, a nossa desgraçada saúde e o centro de saúde de Figueira de Castelo Rodrigo sem médicos e pessoas dormindo à porta para assegurarem vez ou as histórias tão repetidas dos emigrantes escravizados nas romarias das vinhas do douro. Ou do nosso D’oiro. Doiro dos socalcos da mão do homem da classificação d’Unesco e de todo o suor das vindimas dos homens. Contraste tão nítido e notório com as poltronas e os engalanados naquela gravata vermelha naquela praça vazia do descrédito com que os discursos dos políticos são recebidos. O paradoxo de toda a pobreza encapotada.
Sua excelência o presidente goza dos directos e logo na esteira o primeiro ministro com pompa arrostando sobre a sintonia entre a acção do seu governo e as preocupações transparecidas do discurso – palavras, palavras vãs, lugares comuns, aparência, crise, desculpem mas eu recuso a acreditar.
Recuso acreditar porque conheço o estado real da educação desta ditosa e garbosa república, sei como funciona a justiça e já vi doentes caírem das macas nos corredores das urgências dos nossos hospitais. Sinto e preocupa-me a descrença que cresce e cresce e inunda todas as falanges da sociedade, ouço estupefacto bramir obras megalómanas e milionárias sem se acautelarem os direitos mais básicos dos nossos cidadãos. A não ser que não sejamos todos cidadãos de primeira. E aí sim. Aos alinhados e apadrinhados a república e aos restantes – tantos dois ou três presentes – pobre Magalhães que nem após séculos te deixam em paz, as noites ao relento na busca de uma consulta num centro de saúde onde trabalham quatro médicos. E são tantos e tantos os sintomas de enfermidade que me recuso a acreditar. Recuso a acreditar num país que se não importa com centenas de milhares de recém-licenciados e que perdeu o sentido do fundamental enquanto canta vitórias e vilórias de um sentido de esquizofrenia, enquanto alça a bandeira e brame no deserto por um oásis que todos sabem nunca chegará.
E então proponho que enquanto houver um cidadão desempregado se suspendam os feriados que sejam de exultação ou de consagração de uma classe política ostentatória. E que se comece pelo do cinco de Outubro. Porque a ostentação quando convive lado a lado com a miséria é o maior ultraje. Podem vestir e sentar seda e poltronas mas as nódoas coexistem, são maiores que vós, são a prova do vosso descrédito e a certeza de uma praça vazia. Vazia de gente, vazia de povo, vazia de sentido. O vosso discurso carece de significado até porque ninguém lhe deu guarida.
Nuno Monteiro

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

discurso a uma plateia de iguais

A figura maior, a alusão prevalecente, a espiral de realidade, o centro nevrálgico de todo o nosso descontentamento – não!, não é o deserto, tão pouco a neve ou o desconforto físico, esses cadernos do subterrâneo, esses antigos mestres, esses gárgulas reflectidos, esses olhos ameaçadores penetrantes de medo somos nós, são os nossos, subjugados, sou eu ao centro do poço, erva daninha espezinhada, peixe miúdo como todos vós, entes irmãos cozinhados em lume brando, nós, eu e o poço. A realidade crua e todas as nuvens ameaçadoras que se imiscuem entre eu e tu, os arrepios de toda uma imensa culpa, corta e desilude, castra e firma invejas, arregaça as mangas num trabalho inglório profusão de mentes que esbracejam sem sentido, anémicos pecadores, anarcas perdedores, saudosos itinerantes desta vida que é a de nós todos. E agora, com a vossa licença, sentado que estou à proa deste meu momento de toda a glória, na esteira de um livro, obra-prima que é a minha coroada de toda a imperfeição, permitam-me que me cale e que passe a falar-vos por intermédio dos livros de outros, dos meus heróis, dos meus eternos sentidos, dos meus pastores.
Calo-me continuando a falar e nem por isso deixo de ser eu, sou eu por intermédio de tantos outros meus faróis, sou eu por meio de palavras rascunhadas que dão frases com sentido, ferem e acabrunham, coro de inveja, impelem-me a outras trajectórias, corrigem-me, desformatam-me e consolam-me.
Humildemente peço-vos que me ouçam. Depois me direis se tenho ou não razão. E entretanto olharei de relance para os vossos olhos na esperança de que me queiram transmitir as inúmeras centelhas de que preciso para vos fazer reflectir.

“O homem na camioneta cuspiu e fitou-o de olhos semicerrados. Qual é a tua ideia, Lester, dar-me um tiro? Não fui eu quem te tirou a herdade. Foi o condado. A mim só me contrataram como leiloeiro.

O tipo é doido, CB.
CB disse: Se me queres dar um tiro, Lester, podes dar-mo aqui onde estou. Não saio daqui por tua causa.”

Cormac McCarthy, child of God, 1973. Magnífica antevisão dos nossos infelizes tempos modernos onde tantos e tantos espoliados esbracejam sem sentido. Este trecho traz-me à lembrança todos os milhares que entregam as casas ao banco para enfim caírem num limbo desprovido de senso e sentido. Quanta pena tem CB? Não tem nenhuma. A ele só o contrataram como leiloeiro. Porém participa da fraude. Não se recusou a tomar parte da destruição. Se não fosse CB seria outro igualzinho a ele. E este é o maior dos dramas. Há sempre um facínora na disposição de fazer o trabalho sujo. Com deus do seu lado. Pode deitar e dormir descansado e um pouco mais rico porque sente deus do seu lado.

“Há muito tempo que tenho vergonha, uma vergonha mortal, de ter sido, ainda que de longe, ainda que de boa fé, por minha vez um assassino. Com o tempo, compreendi apenas que até os que eram melhor que outros não podiam impedir-se, hoje, de matar ou de deixar matar, pois estava na lógica em que eles viviam e que não se podia fazer um gesto neste mundo sem se correr o risco de se fazer morrer. Sim, continuei a ter vergonha, aprendi isso – que estávamos todos na peste – e perdi a paz.”

A peste, Albert Camus. Esta alegoria poderosíssima de uma cidade em quarentena assolada por uma doença mortal epidémica – uma peste, é de uma desinquietação ensurdecedora à medida que nos vai mostrando de fraquezas somos feitos. A peste confunde-se com o homem. A espécie comporta-se tão miseravelmente mal. Excepção feita a um punhado de tão poucos pobres palhaços teimosos que sofrem de um humanitarismo que invariavelmente os ensombra e os sufraga. Ainda hoje não tenho noção do quanto será necessário para deixar de ser um pestiferado. É a consciência da peste que me inquieta. E o sentir de desalinho feito.

“Decidi então falar e agir claramente, para me pôr no bom caminho. Por consequência, digo que há flagelos e vítimas e nada mais. Se, dizendo isto, me torno eu próprio um flagelo, não é por minha vontade. Procuro ser um assassino inocente.”

Camus, de novo, na mesma obra. Como é que se foge desta sorte maldita de peste, pestiferado, assassino? Descortinarei aqui a própria vontade de criação deste espaço? Dúvidas, muitas, imensas…

“-Informo que vocês estão loucos – apeteceu-me dizer em voz alta. – Informo que tudo isto, esta reunião, este asilo, esta merda científica são a prova acabada da vossa estupidez, da vossa inutilidade, da vossa loucura, informo que estou a enlouquecer com vocês e quero que me levem daqui antes que me torne numa camisa de dormir…”
António Lobo Antunes, in Conhecimento do inferno, data da primeira edição 1980.

Vinte e oito anos volvidos a consagração da derrota, a aposição da desgraça e o nosso rectangulozinho mergulhado num sentido de esquizofrenia que tira a razão a todos e que nos marca desgarradamente como carrascos. O homem é o inferno de si próprio. O inferno é em vida, aqui, ao redor de nós, nas palavras e nos actos de todos os outros…

“- a colega passe isso a limpo o mais depressa possível – decidiu solenemente a perna -, a fim de ser apresentado às autoridades competentes…”
Do conhecimento do inferno

O caminho que o país leva é o oposto do que deveria ser. Secura no trato, todos os peixes miúdos escravizados de trabalho, os nossos filhos esquecidos a um canto, lágrimas, convulsões, a antítese da felicidade. Os que berram que não são açaimados e metidos em camisas de força. Deitados despejados como pobres desgraçados bem fundo lá tão escuro ao fundo do lodo ao fundo do poço.

Nuno Monteiro


Nódoas

São 6h da madrugada. Toca o despertador. Levanta-se. Toma banho. Trata do pequeno-almoço. Chama o miúdo. Põe-lhe a roupa que escolheu na noite anterior e que ele tem de vestir (ou devia) em cima da cama. Acaba de se arranjar. Chama o miúdo que continua, ainda, na cama. Olha as horas que passam a correr. Ralha com o miúdo que só agora sai do ninho e se encaminha, irritantemente lento, para a casa-de-banho. Sorve de um trago o leite já frio. Volta ao quarto do miúdo, que vestiu as calças que já estavam para lavar e a camisola do dia anterior, paciência, ele lá sabe. E as horas correm. Enfia-lhe o casaco enquanto ele come, sem vontade, os cereais já moles. Sai de casa. Metem-se no carro. Atravessa a cidade em pânico porque já são quase horas de estar no emprego, mas deixa o miúdo mesmo à porta da escola porque está frio e pode adoecer. Despede-se com um “Até logo.”. E corre de novo até chegar, finalmente, ao local de trabalho.
O miúdo, na escola, atura impaciente e aborrecido um sem número de professores e disciplinas que lhe dizem muito pouco (ou nada). Desenha uns rabiscos na margem do caderno de Matemática. Combina, cúmplice, um almoço no Mac. Decide horas e pontos de encontro. Aponta o número do Zé numa folha amarrotada. Disfarça quando o professor pede para alguém ir ao quadro resolver a equação. Procura na mochila o CD que o Luís lhe pediu. Toca para a saída. Vai para o intervalo. Joga à bola. Troca Tazos. Conversa sobre o filme que esteve a ver, no dia anterior, até às quinhentas. Masca uma pastilha. Dá um empurrão ao colega. Entrega o CD ao Luís. Toca para a entrada. Sobe, molengão, as escadas. Entra na sala. Português – Que seca!!. A Rita tá muita gira! Manda-lhe um bilhete com um piropo de mau-gosto, que passa de mão-em-mão. Espera pela resposta que chega num insulto. O professor explica qualquer coisa sobre uma tal de Conjugação Pronominal, ou lá o que é. Cochicha umas coisas com o colega do lado. Toca para a saída. Acaba a aula – a última do dia. Porreiro!
Entra na sala. Poisa a pasta. Tira lá de dentro um sem número de livros e papéis, qual mágico da cartola. Abre o livro de ponto. Escreve o número da lição e a data no quadro. Espera, à porta, os alunos que teimam em tardar. Recebe-os com o sorriso de sempre e um bom-dia do fundo do coração. Olha-os, enquanto ocupam os seus lugares com a eterna esperança de conseguir abrir-lhes o horizonte e ajudá-los a ser, em cada aula. Escreve o sumário da aula que vai oferecer-lhes. Faz a síntese da aula anterior. Introduz o assunto da aula do dia. Explica. Volta a explicar. Decompõe. Troca por miúdos até já não ter mais moedas. Exemplifica. Exercita. Tira dúvidas. Repete-se. Repetem-no. Ignoram. Ignoram-no. Irrita-se. Tenta compreender. Ajuda. Dá apoio. Ensina (ou tenta ensinar): a sentar-se, a comportar-se, a agir, a aprender, a apreender, a raciocinar, a seleccionar, a resumir, a sintetizar, a aplicar, a ser... Grava, no livro de ponto, os pontos tratados ao longo de 90 minutos. Despede-se com o mesmo sorriso de sempre e um bom dia do fundo do coração. Sai da sala. Encaminha-se para a sala de professores. Senta-se. À volta da mesa discutem-se estratégias, métodos, conteúdos, dificuldades diagnosticadas, casos pontuais de alunos que se atrasam, que não vêm, que vêm, mas que não estão, da ausência de pré-requisitos, dos pré-requisitos de alunos ausentes, de pais mais ausentes ainda...
São cinco horas. Arruma a secretária. Sai do emprego. Exaspera-se no trânsito. Atravessa a cidade. Chega à porta da escola onde não tem lugar para estacionar. Coitado do Pedro, vai apanhar frio. Chega o miúdo. Entra no carro. Como correu o dia? Bem. Vai ao super-mercado. Compra umas coisas que faltam e um CD do Robbie Williams ao miúdo que nunca mais se cala. Chegam a casa. Adianta o jantar. Põe roupa a lavar. Lava a loiça do pequeno-almoço. Passa umas coisitas a ferro. Chama-os para jantar. Jantam.
Deixa a mochila à entrada da porta. Pendura o blusão na cadeira da sala. Atira as sapatilhas para ao pé da secretária. Liga a televisão. Estica-se na cama. Ouve o CD novo. Ò mãe! Traz-me um pão com fiambre! Já vou... Chega o pão. Não tens nada da escola para fazer? Já faço. Come o pão. Liga o computador e aterra num “Chat” qualquer onde tagarela com um tipo de Ourém. Vasculha, na mochila, o número do Zé. Marca um jogo para o Sábado seguinte. Desfolha a revista de motas à procura da próxima prenda de aniversário. A mãe chama para jantar. Senta-se à mesa. Começa a comer. Passa-me a salada. Serve-o. Não compraste Coca Cola. É sempre a mesma coisa. O jogo Porto - Sporting começa às nove. Termina a correr. Sai da mesa a meio da refeição. O jogo vai começar. Entra no quarto. Estica-se na cama. Vibra. Salta. Golooo!!! Rói as unhas. Intervalo. Ó mãe! Traz-me uma maçã! Já vou... Trinca a maçã. Já fizeste os trabalhos da escola? Já vou... Enerva-se. O árbitro é parvo, ou faz-se?!!!. 3-0 para o Porto. É sempre a mesma coisa!... Amanhã tem teste a Ciências. Tem sono. Que se lixe! Tive positiva no outro... – deitou-se às tantas no dia anterior. Deita-se. Dorme.
Levanta a mesa. Arruma a cozinha. Vê 20 minutos da novela. Discute a conta da água com o marido. Vai ao quarto do miúdo. Já dorme. Tapa-o. Arruma a roupa que ficou espalhada pelo quarto. Apaga o computador, a televisão e a luz. Encosta a porta. Veste o pijama. Põe o relógio a despertar. Deita-se. Esqueceu-se de tirar a roupa da máquina. Levanta-se. Tira a roupa da máquina. Mais um rol para passar a ferro no fim-de-semana. Volta a deitar-se. O Pedro não vai nada bem na escola. Não entendo. Ele tem tudo o que precisa para ser um bom aluno. Não deixamos que lhe falte nada. Deixa lá o garoto. Eu, com a idade dele, era igual... E se reprova? Ainda é novo. Deixa-o gozar a vida... Só reprovou uma vez... Tu lá sabes... Amanhã tens tempo de ir ao Banco? Só se for à hora de almoço. Pode ser. Deixo-te os papéis no móvel da entrada...
Sai da escola às 19h. Vai tirar fotocópias de umas fichas informativas. Chega a casa. Liga o computador. Tem de terminar a acta do Conselho de Turma. Escolhe, entre muitos, um texto para o teste. Elabora questões. Faz cotações e correcções, Planos Curriculares de Turma, Planificações adequadas e Específicas. Repensa estratégias. Analisa casos concretos de alunos abstractos. Planeia aulas. Calendariza apoios e testes. Come qualquer coisa. E o Pedro? Não sei o que se passa com o miúdo... Ele até tem capacidades... Não se interessa. Não estuda. Não liga nada. Hoje não esteve atento. Fartou-se de conversar com o colega, de passar bilhetes à Rita... Tem tudo o que quer sem fazer esforço nenhum... Que objectivos há-de ter? Tenho de ter uma conversa com ele, amanhã. Se calhar, é melhor dar-lhe apoio. Pode ser que resulte... Corrige doze testes de uma turma. Está cansado. Exausto. Desliga o computador. Arruma a pasta. Deita-se. Dá voltas à cama. À pedagogia. À vocação. À estratégia. Ao desempenho. Ao desempenho dos 98 alunos que tem. Ao aproveitamento do Zé, do Rui, da Joana, da Isabel... Ao comportamento do Pedro, do João, do Carlos, da Sónia... Adormece.

São 6h da madrugada. Toca o despertador. Levanta-se.
São 6h da madrugada. Toca o despertador. Levanta-se
São 8h da manhã. A mãe já chamou três vezes. Vira-se para o lado. Adormece de novo...

E é, infelizmente, assim. Muitos meninos são entregues à escola, qual casaco usado à lavandaria: cheio de vincos, dobras, quebras, nódoas, pó... E a escola que sacuda, areje, limpe, lave, tire manchas mais ou menos entranhadas, dê um pontinho onde for preciso, passe a ferro, engome e no-lo entregue novinho em folha, como acabado de vir da loja, sem odores nem vícios, sem mácula ou vinco que nos deixe ficar mal... Mas a lavandaria não faz milagres, se votamos ao esquecimento os casacos, no armário, uma estação inteirinha... Depois, há sempre nódoas que teimam em permanecer...

Dina Cruz
“ A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”

António Lobo Antunes

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