domingo, 28 de dezembro de 2008

Feliz ano novo para a minha pátria em trevas


Feliz ano, este ano, para ti, para todos
os homens e terras, ó amada Araucania.
Entre ti e a minha existência há esta noite nova
que nos separa, e bosques e rios e caminhos.
Mas para ti, ó minha pequena pátria,
o meu coração galopa como um cavalo sombrio:
entro nos teus desertos de pura geografia,
atravesso os vales verdes onde a uva acumula
seus verdes álcoois, o mar dos seus cachos.
Entro nas tuas aldeias de jardins fechados,
brancas como camélias, no acre
odor dos teus celeiros, e penetro
como um tronco na água dos rios que
estremecem,
trepidam e cantam com lábios derramados.

Lembro-me de que, nos caminhos, talvez por esta
época,
ou melhor, no Outono, sobre as casas deixam
as espigas douradas do milho a secar,
e quantas vezes me senti como um menino
extasiado
ao ver o ouro nos telhados dos pobres

Abraço-te, devo agora
voltar ao meu esconderijo. Abraço-te
sem te conhecer: diz-me quem és, reconheces
a minha voz no coro do que está a nascer?
No meio de tudo o que te rodeia, não ouves
a minha voz, não sentes como o meu timbre te
envolve,
jorrando como água natural da terra?

Sou eu que abraço toda a doce superfície,
a cintura florida da minha pátria e te chamo
para falarmos, quando se extinguir a alegria,
e te oferecer esta hora como uma flor fechada.
Feliz ano novo para a minha pátria em trevas.
Vamos juntos, o mundo está coroado de trigo,
o alto céu corre, desliza e parte
as suas altas pedras puras contra a noite: a nova
taça encheu-se apenas com um minuto
que há-de juntar-se ao rio do tempo que nos leva.
Este tempo, esta taça, esta terra são teus:
conquista-os e escuta o nascimento da aurora

Pablo Neruda – Coral de ano novo para a pátria em trevas, capítulo XIII, Canto Geral com tradução de Albano Martins

sábado, 27 de dezembro de 2008

Namoro - Viriato da Cruz


Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...

Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO

E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

(No reino de Caliban II - antologia
panorâmica de poesia africana de ex-
pressão portuguesa)

A morte da água - Ruy Belo



Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a Esposende ver desaguar o Cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore genealógica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em Esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.

Ruy Belo

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

POema - Mário Cesariny


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é o seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Mário Cesariny, Uma Grande Razão, edição da Assírio e Alvim

Vida é mesmo assim - José Craveirinha


Em dia de reclusos
Pela Maria e filhos passa um carro.
Um filho diz – Mamã
Vai ali um amigo do papá
Ele viu-nos e virou a cara.

E a Maria apenas disse – É a vida meus filhos.
Vocês hão-de ver. Quando o vosso pai sair
Todos esses vão ser amigos dele outra vez.
A vida, meus filhos é mesmo assim…

José Craveirinha in Maria, edição Círculo de Leitores

Cão como Nós - Manuel Alegre

Como nós eras altivo
fiel mas como nós
desobediente.
Gostavas de estar connosco a sós
mas não cativo
e sempre presente – ausente
como nós.
Cão que não querias
Ser cão
E não lambias
a mão
e não respondias
à voz.
Cão
Como nós.

Manuel Alegre, numa edição Planeta de Agostini

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

2 poemas


Infinito…
Imenso…
Azul…
O mar!

Infinito azul de frescor e vida…
Infinito azul de imensidão e revolta…
Azul, azul, azul…

Esconderijo secreto de mistérios insondáveis
Habitáculo de escuridão e vazio
Berço de poemas e canções
Túmulo de viajantes e marinheiros
Destino de longínquas paragens
O mar!

Azul, azul, azul…
Imenso
Infinito
O mar!

Do ventre da terra
Nascem dias cinzentos
De escuridão e ausência
Solta-se o negro das almas
E escorrem,
Das mãos,
Os ódios e raivas do passado

É manhã!
E do cume dos montes
Resvala uma luz tépida e mole
De pretenso viço

Nada cresce
Na aridez dos penhascos
Nada vive
Na solidão do monte
Nada se ilumina
A solidão dos homens
Nada permanece
Na podridão dos dias!

Tudo perece…
Tudo fenece

Dina Cruz

Borboleta errante

Do meu quarto olho ao longe e vejo-te ternura
abro as janelas de par em par
e deixo que entrem, deixo que me absorvam
absorvo intrépido o ar da manhã
e desço as pálpebras até me encontrar comigo

E então, então são as tágides
são as sereias
é o sonho
então só então sou marinheiro no teu mar interior

então só então entro sem bater
olho sem incomodar
trinco e aperto como se toda a minha vida
fosse depender do momento
fosse viver desse sentido
fosse alcançar as estrelas
os altos pináculos
onde tu vives
onde tu te ris

abro os olhos de par em par
e lá está a montanha
lá está a terra
lá estás tu alegórica poesia
lá estás tu amizade eterna
lá estás tu borboleta errante

Nuno Monteiro

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Capelo de andanças


Lá ao longe…ainda ao fim do mar…enquanto esfrego os olhos … nevoeiro baixo e um frio que me entorpece. Tu, só tu, estarás para sempre comigo. O mar é um capelo de andanças. Eu sou tão pouco pecador. E tu, só tu, sacas das tuas armas e envolves-me suavemente. Se por um momento apenas pudéssemos conhecer o sabor das castanhas dessa Lisboa antiga. Se por um instante apenas…lá ao longe…no fim do mar. Para quem terei eu nascido?
Lá ao longe entre a neblina aquela és tu. Aquela canhoeira de projécteis vazios e infundados. A cabeleira tão preta da enfermeira que me tirou sangue hoje de manhã. Que frio dormia do meu lado da cama. Que buraco de inconstância. Que sede de poder. E que sorriso o teu. Se por um momento só outros pudessem ver de que forma tu fumas o teu cigarro. E como curtes as tuas zangas.
Lá ao longe entre a neblina de trovoada, aquela és tu. Minha inveja. A minha caudalosa torrente, a minha infame lâmina, a minha cantiga tão piedosa. Não há ninguém maior que tu. Como, com tempo de chuva te podes despir e dançar, te podes esconder e adormecer, como, em tempo de sol és capaz de voar, vaga e etérea sobre os campos de trigo e as florestas de carvalhos. Como, em tempo sem tempo és capaz de fumar. Como, em tempo de inconstância, poderás caminhar navegando, poderás ser alva errante, conseguirás ser tornado e redemoinho.
Lá longe…ainda ao fim do mar…ainda e sempre a fronteira do mar, tu sem seres tu, tu nunca aqui, tu sempre numa eternidade maior que a minha. Pois fica aqui escrito entre nós…não te deixarei morrer…farei voar esses teus cabelos de fogo…impregnarei este papel do teu cheiro…de cada vez que te irritas, quando pedes um café curto…que fronteira intransponível, que vida melodiosa, que vaga de calor quando colas tua cara à minha.
Aqui ao perto nós os dois na mesma sala sentados no mesmo sofá olhando os mesmos avisos partilhando os mesmos momentos. Enquanto fada encantada…tudo o que fica por dizer… o céu azul e a fronteira da terra. Uma Terra com o teu nome. Um lugar do teu feitio. Só que te não conheço. Esse lugar do demónio. E eu habito em todos os lugares. Esqueci-me da terra com o teu nome. Regá-la-ei. Arregalar-me-ei!
Aqui ao perto o mesmo livro aberto. A mesma folha a mesmíssima palavra. Aqui tão perto a palavra e o encanto. A beleza lírica que és tu. Que sempre foste tu. Aqui sentada ao meu lado a poesia. Nas tuas pernas de mulher. Pousada nas tuas coxas de saudade. Olhamos o mesmo livro aberto. Ouvimos a mesma melodia feita de intriga. Iguais. Que buraco de serenidade. Que cruel narrativa. Que sucessão de opressões.
Aqui ao perto a mesma lápide tumular. A mesma macieira. Dois ou três campos de trigo. Desavindos presos a um quadro minimalista. Encarcerados, um no outro, esperando o fogo lânguido da lareira. Engalfinhados e endemoninhados. Haverá quem mais me irrite? Haverá quem mais me contente? Poderá algum dia ser de outra forma? Até quando as questões? Não te deixarei partir nunca. Por isso lá longe não existe. Só o mar. Só a neblina onde és sereia. Só a terra onde és chuva. Só tu. Só tu. Arregalar-me-ei!


Nuno Monteiro

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

As palavras


São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

As minhas saudades



Ontem visitei o meu antigo auditório. O local onde há tanto tempo eu não entrava. O local parado no tempo como se estivesse à minha espera. Parado etéreo dir-se-ia à minha espera. Como se alguém por mim esperasse. Um auditório. Um local onde entrei para tantas aulas com tantos professores. Ontem quando lá entrei foi como se estremecesse. Foi como se submergisse. Embargou-se-me a visão e toldaram-se-me os sentidos. Senti-me transportado para os meus dezoito anos recordando tudo quanto lá tinha vivido. Todos os bons momentos. Outros maus também. Senti-me como se toda a visão desta que é a nossa vida passasse diante de mim num frémito de paixão. E então lá estava o meu professor. Lá estavam os meus companheiros. Os meus camaradas. Os meus camaradas que se evaporaram na voragem desta vida. Para vós este texto. Para vós esta mensagem. Para vós estive eu ontem no auditório. Parecia que poderia respirar por vós. Parecia que conseguia ver pelos olhos que são os vossos. E subia e descia a escadaria arfando de saudade e de dor. Porque a minha saudade é feita de dor. Porque todos desapareceram. Porque vocês desapareceram. Ficaram apenas as paredes cruas e descarnadas do auditório. Ficaram as recordações. O que seria do homem sem recordações? A certa altura não consegui reprimir um soluço. Não consegui deglutir tanta emoção e então sentei e deitei a cabeça entre as mãos. E ouvi. E então em surdina sorria do colega que olhava o professor sem que o percebesse. Sorri ao combinar de novo os bares após os exames. Sorri ainda mais ao professar de novo todas aquelas nossas noites. Sorri do que tenho cá dentro. Sorri ao voltar atrás no tempo. Quão bom é voltar atrás no tempo.
Cheguei ao auditório sem vontade própria. Fui para lá levado. E quanto agradeço! Como ficarei agradecido a quem me lá levou. Como estou agradecido a quem lá me levou. Ao meu antigo auditório. Ao meu antigo ambiente de penumbra onde com dezanove anos todos sonhavam uma vida em grande. Recambolesca. O império em vida. A mão que tudo abarca. O ego gigante que não tem fronteiras. O império não conhecia limites então. Eu, com vinte anos.
Depois dei por mim no lugar dos professores mirando as carteiras vazias. Carteiras vazias mas para mim fervilhando de gente. Um barulho em surdina percorria todo aquele espaço. As vozes que eu tenho cá dentro. Tantas. Tão ruidosas. E então de mim para mim. Eu somente. E para mim ouvi a Patrícia, o Gil, o Marco, o Filipe, a Sandra, o Joe, a Catarina. Tantas vozes de todos os nomes que deixaram de falar comigo. Todos os nomes de todos os meus colegas. Todos os que a vida separou. Todos os que a voragem diária que nos consome terá incendiado. Não sei se os tornarei a ver. Escreverei até os reencontrar. É isso. Escreverei até que um deles leia e procure os outros. Escreverei sem parar até os encontrar de novo. E tornarei a escrever até que a escrita e as palavras sejam maiores que eu. Até que o auditório de novo os chame. Até que todos sejam convocados. E só então descansarei. Então, só então, simularemos um exame, tremeremos dos pés à cabeça, soltaremos brados ébrios tal qual antigamente e combinaremos uma nova noite, uma destas noites como se das nossas antigas noites se tratasse. E percorrê-la-emos ufanando poesia. Afinal de contas que é a nossa vida senão poesia. E reencontro. E música. As músicas que então ouvíamos. Não acredito em mais senão no que aqui deixei escrito.

Nuno Monteiro

A grande alegria


...
Não escrevo para ficar prisioneiro de outros livros,
Nem para esforçados aprendizes de lírios,
Mas para simples habitantes que pedem
A água e a lua, elementos da ordem imutável,
Escolas, pão e vinho, guitarras e ferramentas.

Escrevo para o povo, ainda que este não possa
Ler a minha poesia com seus olhos rurais.
Virá o momento em que uma linha, 0o vento
Que sacudiu a minha vida chegará aos seus
ouvidos,
E então o camponês levantará os olhos,
O mineiro sorrirá ao partir a pedra,
O fogueiro limpará a fronte,
O pescador verá melhor o brilho
Do peixe que, palpitando, lhe queimará as
Mãos,
O mecânico, limpo, todo ele lavado de fresco,
Cheirando ao sabão, olhará os meus poemas,
E eles dirão talvez: “Era um camarada.”

Isso me basta, é essa a coroa que pretendo.

Pablo Neruda in O Canto Geral do Chile

Palavras da lenha

Soturno mirra elegia escarlate da cor maça
Verdes azeitonas como teus olhos dançantes
Vales férteis campos de trigo onde te enleias
Das minhas povoadas e eternas extravagantes aldeias a meia encosta

Das minhas eternas relíquias que como pequeninos deuses
Pululam a terra mediando entre o nascimento
Pululam como se a povoassem esquecendo de esquecer
Dos montes e das pedras das aldeias da meia encosta

Olha o velho que de manhã se alegra à vista do orvalho
Rende a guarda que de noite se acotovela para lhe dar de comer
Atira a matar se lhe atiçam os cães
Olha o engenho que manda antes e mais que a razão

Da cor da maçã que como verdes azeitonas vertem o sangue que o aquece e ruboriza
E lhe dão alvíssaras pelo quanto velho carreiro e das manhãs em que se levantou
Rachando a terra e exsudando a lenha
Aquecendo e vertendo lágrimas
Alvíssaras então à aldeia e ao homem ao velho e à guarida
Cabana, modo, sentido, alvo, ácido, terra, bolotas.

Nuno Monteiro

Mirra incenso e torga

Como me lembro de como te orgulhaste dos cabelos em fogo
Quão longe estavas do teu ideal de beleza
Como me lembro de quão desiludida ficavas quando falhavas
Quão longe estavas então do teu presépio de acendalhas
Das tuas farpas incessantes que como centelhas
Eram luz no céu austral e na noite escura

Como me sinto quando me lembro e de ti e dos teus camaradas
Que contigo corriam que contigo se orientavam
Quão longe estamos agora desse ideal de então
E dessas fragas tamanhas desse oceanos de sentido

Que empunhavas tuas mãos em alvoroço
E compunhas tua voz em rosmaninho
Sobrepunhas teus prantos aos dos outros fados
E eras então só fogo só fados só razão
Na imensa noite dos descalabros miseráveis, dos caminhos secretos dos penedos marcados

Como me quero lembrar de ti no meio do canavial
Toda tesa, exéquias em perseguição do momento do render da guarda
E das balas que zurravam ali por perto
Dos teus cabelos em fogo e da tua face tingida
Dos céus de chumbo e dos frios em que dançavas

Da figura da serra e de ti ainda maior
De ti maior que ela, dela transponível do rio a vau e do outro lado
Do outro lado Mirra Incenso e Torga. Do outro lado outra centelha de fogo.

Nuno Monteiro

sábado, 13 de dezembro de 2008

Discurso de apresentação da obra O poço - FNAC de Braga




Para ler de forma muito pausada, como se te aquecesses à soleira do diabo:



Quero vir aqui falar do homem. Que outro assunto me queimará mais o pensamento. Esse majestoso nada que pede licença para entrar. E muito embora eu ainda não seja um descrente na espécie dir-se-á apenas que estou a meio caminho. E bem balanceado e caindo. Não porque ele seja insidiosamente mau, quantos o não serão, mas antes porque, sob múltiplos aspectos, o considero uma criatura surpreendente e desconcertante. É tão capaz do melhor quanto do pior. Mais capaz do pior que do melhor. Logo no instante seguinte do pior. É capaz de sonhar e de esquecer. É capaz de ovacionar e de maldizer. Encerra em si um desejo de mudança mas logo se acomoda. Berra irado quando a fotocopiadora encrava mas esquece ou ergue muros em volta de África e da malária e da cólera. E esta referência a África poderia ser também uma referência à Ásia, América do Sul, América do Norte. Os baluartes da boa vida desaparecem com a voragem dos tempos. De facto o ser humano ostenta permanente duas faces. A face do comodismo, um bem-estar aparente e ecologicamente pesaroso e a outra face a face da bonomia que distribui comida pelos bancos alimentares deste país. Que distribui migalhas pelos imensos pobres e necessitados deste país. Esta dupla face tem a ver com a dicotomia entre deus e o diabo. Se, nas nossas vidas haverá alturas em que nos sentimos tocados por deus, outras serão momentos de buraco ou de poço. Como se tu gritasses não me deixes cair nesse poço. Ou como se ouvisses o teu colega do lado suplicar por um instante de cordialidade e de serenidade. E tu ouve-lo amiúde. Só que lhe não respondes porque a vida te terá embrutecido. Porque não deixar que esse se afunde no poço se a mim tantos já me magoaram. As dificuldades da vida. As pretensas dificuldades que ao fim e ao cabo não são dificuldades nenhumas. O ser humano que ergue muros de indiferença com que se distancia dos penedos da discórdia tornando árdua a jornada da vida. Pensem comigo por favor – de que valerão as nossas pequenas invejas quando comparadas com o sofrimento das mulheres africanas que vêem morrer os filhos de fome? Vives ao abrigo de uma gigantesca bandeira que te assegura todos os teus caprichos – vives bem e então tendes a esquecer que a Terra não vive toda bem. Esqueces propositadamente que para tu viveres bem milhões de outros não podem ter acesso nem a água nem a comida. Clamas por mais e mais justiça sem que no entanto dês passos reais que te conduzam a ela. Não és revolução. A revolução morreu contigo. A revolução morreu em ti.
Vivemos mundialmente um tempo de mudança. Tempos agitados de ruptura. Tempos nublados e cobertos por uma fuligem que nos vai fechando os olhos e ouvidos. Tempos indutores do medo. Medo do desemprego. Medo das más relações sociais. Medo das invejas. Medo da fome. Medo do medo. Medo do amigo que senta a teu lado. Em cada homem uma nuvem de tempestade, a ameaça de um mar agitado. É esse medo que fomenta o desrespeito. Do desrespeito vive o homem actualmente. Da falta de valores. Da farsa dos valores. Da farsa da vida dos homens. Nada está bem entre o reino dos homens. Há muitos homens e demasiadas guerras.
Vivemos uma era de declínio da civilização ocidental. Injusta sob certos tantos aspectos. Injusta para ti e para mim. O inconcebível torna-se insuportavelmente concebível. Milhões de homens, esquecidos e ignorados morrem devorados por outros homens. Homens que comem homens. E que vivem bem e que tanto ganham com isso. Instituições falidas e conspurcadas. Valores dessacralizados. Um mundo de marionetas num palco de papel. Numa decoração leve de um tom róseo para não matar de susto as senhoras donas de casa. Numa promiscuidade avassaladora que inviabiliza, anula e cristaliza. A figura gigante da máquina emperrada porque não há quem se manifeste. Não há quem berre cultura pelos corredores fora. Não há já quem ouça. Não há ninguém. O homem cessou. Fala não falando ou não se fazendo ouvir, gesticula não gesticulando, olha não olhando, vê não vendo, escreve para não ser lido, olha impávido e derrotado o arco-íris da cor do cinzento. Normaliza tudo. Tornámo-nos todos iguais. E essa igualdade encerra uma perfídia que é filha do diabo. Desse ponto de vista todos somos poço. Todos iremos ao fundo. Afundar-nos-emos caso não nos refundemos. E não parecemos capazes de nos refundarmos. Depois de mim os meus filhos e esses que se amanhem.
Cessam paulatinamente as liberdades no nosso país. Na nossa Europa. Surgem messias. Obama é o proclamado messias. Não existem homens messias. Não existem profecias. Não existem sonhos. O homem sonha mas não age. Cristalizou num modus operandi inimigo da verdade e do altruísmo. Somos o que não deveríamos nunca ser. Temos receio de que algo mude. E na esteira do que não muda apodrecemos sem sequer darmos conta. Uma das verdades mais profundas do génio do homem é o da sua imutabilidade. A negação do desejo de mudança. Feliz natal e um óptimo ano novo. Nas bocas de milhões de bocas. Nas bocas tão iguais de homens tão iguais. Agora sejamos sinceros e verdadeiros. O pregão quer dizer que tenham um natal normal – normalizado – igual e um ano seguinte igual. Nem melhor nem pior. Igual. Se possível pior do que o meu. Que não chegues a passar fome. Mas que te não dê para passar avante e comprar carro melhor que o meu. O que passa despercebido pela maioria é que este sentido de existência tem como corolário uma vida consagrada à mediocridade e à tensão do poço apertado e deixa espaço de sobra para os abutres que se banqueteiam nos melhores restaurantes. Quem poderá julgar que o sentido do homem é um carro ou qualquer outro mal material?
Por isso mesmo cessam as liberdades no nosso país. Por isso as classes estão sob ataque. Longe de mim estar a introduzir qualquer segregação que se baseie na noção de classe. Aqui a palavra leva o sentido forte de profissão. Achincalham-se os professores recuperando-se velhos ódios para que se convertam em votos à boca da urna – nome sugestivo já que, uma urna é outro algo que noutras circunstâncias contém um cadáver; achincalham-se os médicos e os enfermeiros símbolos de outra classe para que se possam daí gerar votos. Votos que nascem da infâmia. Expliquemo-nos melhor. Imaginemo-lo como um dinossauro excelentíssimo que trata todos arrogantemente e que é capaz de denegrir as classes mais letradas para captar os votos da inveja e assim cavalgar o sentido de descrença perpetuando-se no poder à custa dos mais desfavorecidos. E pelo meio coarctam-se liberdades individuais e restringem-se as vozes dissonantes. Dá-se força ao pântano em que se vive. O homem no seu eterno sentido de desprezo pelo outro homem e caminhando vivamente para a berma do poço. Ou inversamente, de dentro do poço, tantos milhões olhando ofegantes as nuvens negras que os esperam quando e se dele conseguirem sair. Procuram-se manter milhões subalternizados por uma idolatria que é analfabetismo cruel para que esses milhões possam ser melhor manipulados e manietados. De vez em quando saem novelas e telenovelas para que se mantenham milhões entretidos. Ou tiros e carnaval de algum corso de vivas cores. O gigantesco mundo do entretenimento. Orwell e o triunfo dos porcos. Restará adiantar que de degrau em degrau é a República quem se fragiliza e a irresponsabilidade quem assalta os lugares.

Palavras rudes num mundo rude. Palavras amargas num mundo amargo. Ideias indigestas. A cada um a liberdade de as julgar. A cada um a prerrogativa, central e inatacável de as aceitar ou não. Mas a cada um o dever de pensar. Porque foi para pensar que nasceu o homem. É no pensamento que ele se concretiza. É no pensamento que ele existe. Nada mais há senão palavras e ideias. Daí que elas me sejam tão caras. Em cada livro uma certeza que é também uma prova de humildade. Agitam-se as águas na certeza de que, cada um de vós não deixará de olhar esta ideia como uma mais sobre a qual julgarão.
Quanto a mim, a mim o papel que me coube. A mim a agonia da escrita. Agonia que não enjeito desde que vocês me leiam. Não vou nem poderei nunca mudar mundo algum. Mas poderei, caso assim vocês o entendam entrar dentro de vós e uma vez lá agitar-vos para que se possa aceitar o essencial da vida. Restará então saber o que é o essencial da vida. Não há questões simples. E muito menos resposta únicas.
Permitam-me então pescar uma ideia de José Saramago. Do discurso na academia sueca quando se referiu aos avós. Duas ideias, se me ajudarem. A primeira, a imagem do avô abraçado às árvores do quintal. A prova do que é realmente importante. E a segunda, nas palavras da avó que se despedia deste mundo louvando-o só porque ele é belo. Porque ele é belo. Porque ele é belo. Como se as palavras ecoassem. Quanta pena sentia de morrer porque se separaria deste mundo que era tão belo. Continua a ser belo. Por mais que o homem teime em afirmar o contrário.
Com receio de estar a maçar, e agradecendo uma vez mais as palavras que pude aqui deixar, agradecendo a vossa presença que tanto me felicita.

Muito obrigado!




Nuno Monteiro
“ A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”

António Lobo Antunes

Prémio Histórico - Filosóficas