sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Os olhos de adão e os pés de eva

O grande e majestoso deus, com as suas mãos de camélia, veio ao chão grande buscar um pouco de barro e amassando-o, tendo-se entretido mais que a conta, deve ter fartado pois atirou-o borda fora…
À data, o grande deus viajava de barco e havia uma quantidade enorme de pequeninas gentes que o remavam!
O bocadito de barro, intrépido e volteante, acabou de ganhar forma pelos ares e quando caiu, aterrou nas areias de uma praia lindíssima. Dois pés de mulher, o grande deus fizera, quase sem querer e o vento depois moldara, dois belíssimos pés de mulher. Ainda não havia a mulher, ainda não havia a face, ainda não havia o colo, as pernas e muito menos os cabelos ou os olhos. Mas já lá salteavam, praia fora, os pés, o esquerdo e o direito, frondosos, saltitando por entre a preia mar, evitando os recifes.
E durante muito tempo, o deus, tendo-se enfastiado, não quis mais moldar e quase abandonaria a arte não fosse um ou dois traços de teimosia. E durante todo esse tempo os pés zombariam indecisos e nús pela praia.
Contudo, o deus, magnífico, tempos depois, criaria dois olhos e arremessá-los-ia para a mesmíssima praia. Teria havido intenção? Tenho quase a certeza que não. Finalmente os olhos de imediato olhariam os pés e de repente se apaixonariam…
Então, o grande deus, embora já se enfastiasse ainda não se tinha tornado mau e daí vai que, tendo-se apercebido do que se passava na praia pegaria numa paleta de barro e desenharia uma macieira e nela colocaria uma enorme e suculenta maçã. Acabando adão entregar-lhe-ia os olhos que antes deitara para a praia e acabando eva entregar-lhe-ia os pés, belíssimos que havia tempo se encontravam na praia. Assim, adão entreter-se-ia com os pés de eva e nem olharia para a maçã. O paraíso seria para sempre paraíso e a maçã, acabaria por cair do quadro para o chão e madura, comê-la-iam os vermes, esses glutões.
Deus, admirando adão e eva no paraíso pediria aos seus súbditos que dali o remassem para fora e pegando num novo bocado de argila, teria desta feita mais cuidado e em vez de pés de mulher, durante um sono de adão, pensaria na história mais que badalada da costela.

nuno monteiro

terça-feira, 26 de outubro de 2010

No canto da Escrevedeira


Houve uma princesa moura que cá viveu… as escrevedeiras são pássaros pequeninos que vivem muitos anos e são tão coscuvilheiras que conhecem todas estas histórias de princesas. Era assim que começava a composição da Lua. Uma princesa moura que cá viveu! E essa princesa era bonita? Ora se era, alguma vez ouviste falar dalguma princesa que não fosse bonita de morrer… bem, mas o facto é que por detrás de todos os lindos vestidos a princesa chorava. Oh! Então não era feliz! Mas, ó escrevedeira, como saberás tu que a princesa não era feliz… ora essa, defronte do quarto dela havia então uma nogueira tão grande onde eu pousava e ouvia-a, era um choro que quase se diria uma eterna declamação, ou um lamento baixinho, um sussurro como se falasses para o vento te levar as palavras. Isso, o vento era o carteiro da princesa, levava e trazia novas do namorado, mas, ó escrevedeira o que ouvias tu, que dizia essa princesa? Sempre que o vento soprava para sul, para as terras onde estaria o príncipe de quem ela gostaria, ela entreabia um pouco a janela e cantava

Belo príncipe por quem eu me apaixonei
E que eu não vejo por vontade de meu pai

Quando o vento soprava mais furioso e a nogueira rugia eu não conseguia ouvir a melodia, tinha( isso sim) que me agarrar melhor aos pequenitos galhos que pareciam terramotos…

Pudesse eu ter um cavalo destemido
Ou fossem meus os caminhos que trilhei

Porém houve logo quem perguntasse, ó escrevedeira, mas se essa moça era árabe, declamava em árabe e então tu, um simples pássaro, como a percebias? Ora essa, pois que no final de cada ventania e mesmo quando o sopro estava no auge, se ela deitava pela janela um cabelo preto longo que logo voava para perto do namorado, que crês tu que ela declamasse?
O Professor: Lua, parabéns, a tua composição está muito bonita!
A Lua: sim professor…
O Professor, outra vez: Como surgiu essa história?
Contou-ma a escrevedeira, ontem, à noitinha, depois do jantar, empoleirada no galho da Nogueira…

Nuno Monteiro

domingo, 24 de outubro de 2010

domingo, 17 de outubro de 2010

O Tango do Mundo

Nos olhos a saudade:

adoro as tuas pernas de Buenos Aires e os sapatos pretos que te encantam bailando,
o triângulo de cetim que se dobra sobre ti como se fosse traição,
o sangue que te inunda a face e te cora de vergonha ou a mudez que te leva dançando
adoro as tuas mãos que tocam gentis e esse teu passo arrastado, quase cansado

Um tango que te leva:

Tuas as mãos quiseram as pétalas que te escondem os mamilos
Enquanto
água suada te cai pelo rosto e tu ris por fim
o cabelo apanhado em espuma vermelha
e uma figura de linho que pousa no chão um pé oblíquo
e estendendo o braço pede um abraço.

A viagem transcontinental:

suga-a em Paris, apalpa-a e obriga-a a uma dança
um trago de emoção
mistura-lhe o coração
trá-la ausente do traço
fá-la descrente
no mesmo braço, presente e ausente, com os olhos fitos num laço


À noite:

Envolve-a num carro sobre a escuridão
Parqueia em frente à mansão
Atravessa Versailles, franco e confidente
Envolta-a num pano preto e
Condu-la às cegas…
Quando do mundo suficientemente retirados
Morre-a na madeira do chão.

Nuno Monteiro

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sessão pública de apresentação


Não estando no poster escrito, diremos que o Clube de literatura terá muito gosto em rever todos os antigos alunos que queiram marcar presença... e sendo esta uma sessão pública de apresentação podem e devem trazer amigos e familiares... Os interessados deverão dirigir-se, à hora marcada, às instalações do Colégio da Boavista.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ao Chile

Puro, Chile, es tu cielo azulado,
puras brisas te cruzan también,
y tu campo de flores bordado
es la copia feliz del eden
Majestuosa es la blanca montaña
que te dio por baluarte el Señor,
y ese mar que tranquilo te baña
te promete futuro esplendor.
Refrão
Dulce Patria, recibe los votos
con que Chile en tus aras juró.
Que o la tumba serás de los libres,
o el asilo contra la opresión.

(Hino Chileno, Eusébio Lillo e Bernardo de Vera y Pintado)

Troy

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Sangue, suor e Tango


Dentro de mim sinto que não tenho nada! E finda a oração apagou a luz e dormiu. É que enquanto se diz que a vida se leva de vencida com as regras da ditadura ela sempre teve um fraquinho por Bakunine e pelos reles e utópicos anarquistas. Durante o sonho teimava em lábios pintados e pernas vestidas por mãos masculinas, pensava em fumar e vestir longos vestidos enquanto dava grandes saltos, de palco em palco na mítica Buenos Aires, por vezes cigana, mostrando os lutuosos cabelos pretos ou, espanhola, fogosa, uma litania que debulhava de dentro dela e lhe tirava a roupa e a percorria, à flor da pele, empalidecendo. E mesmo que desmaiasse nada temeria pois que ele dela se acercaria e tocando-lhe os lábios de novo a traria à vida e então, olhos nos olhos lhe diria, despe-te…
Uma anarca incipiente, ainda agora saída do ideal revolucionário do romantismo…
Dentro de mim não há nada! Apenas um crucifixo, um quarto nu, liso, húmido. São as regras da vida pura que me despem das cores e me não pintam os lábios. Adormece a olhar a televisão, mantém o bando de cabelos pretos escondidos entre a almofada. E mesmo antes de adormecer o que olha é a silhueta de um comboio andino e murmura, vai vazio de mim enquanto eu, eu cá fico vazio dele…
Feita adulta, para além dos cabelos pretos demoníacos, completavam-na dois pares de olhos escuros que fuzilavam por tudo e por nada…
Nuno Monteiro

domingo, 10 de outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

Do que eu vou lendo...

(…) Escutei com satisfação esse ruído múltiplo, de sonoridades secas e perfeitamente adequadas à melancolia das memórias antigas; e em breve o sol voltou a brilhar, restituindo-me a mim próprio, com esta imensa bênção do universo que todos experimentamos num momento qualquer das nossas vidas, a fragrância mais delicada que existe no globo, simultaneamente a mais jovem e a mais imemorial, a mais tenebrosa e a mais inocente, a mais próxima do início do mundo e a mais nova, aquela que agita no coração humano a maior tristeza e a maior alegria: o perfume da terra molhada.

Julien Green, Paris, tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Do amor duma estátua


Morava uma estátua num quarteirão em Paris, numa praça dum quarteirão em Paris, ao fim duma rua dum quarteirão de Paris. Talvez em Paris não empreguem o termo quarteirão. Defronte dela, da estátua, morava uma outra estátua, com longos cabelos pretos ondulados e seios não tão pequenitos assim, que aleitavam.
Num dia de ventania, escuro como breu e julgando ver Satanás ela gritou um silvo horrível e vergou-se de joelhos. A estátua tinha partido os ossos de ambas as pernas. Foi quando a outra estátua, eu, arranquei os meus pés do chão e caminhei como sobre betão e ferros retorcidos até chegar junto dela. E junto dela, após exterminar os fantasmas e os abutres que a profanavam com gestos e gritos orientais, peguei-lhe ao colo e aluguei, numa pensão barata um pequenito quarto. Foi quando finalmente descobri por que “Paris nunca se acaba”. “Entalei-lhe” as pernas durante quase dois meses para que, cicatrizada a ferida, se não notassem cortes nem cicatrizes. Há que ter estes cuidados quando tratamos com a aparência das estátuas mulheres... Lavei-lhe o corpo uma vez por dia ao longo desses dois meses, e vim a perceber, paulatinamente que a estátua de cabelos longos ficou perdidamente ardida de amores por mim…

Nuno Monteiro

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Argentina

Vestias as tuas pernas
Envolvias os teus pequeninos seios
E dançavas um tango arrastado
Que não era mais que a vida
Subias ao palco enlouquecida

De súbito chegou quem te bateu
E tu fechaste os olhos e enlaçaste os braços protegendo a face…
Deitaste as roupas à mala
E viajaste
Na noite
Por este mundo
Crua
Imóvel
Vertendo por aqui e por acolá
Um pequeno sorriso acanhado
Mas bonito

Rocamadour

domingo, 3 de outubro de 2010

Um nome para a criança


Quietude na casa da floresta. Caído parte do telhado, o velho, o dono, quedava sentado na poltrona olhando a pequenita eira de terra que havia defronte, antes das grandes árvores. A minha casa está em ruínas, e quando o dizia, repetidamente, fazia um esforço para segurar na caixa de ferramentas e por instantes, julgava ser um jovem todo poderoso. E contudo sabia ser velho e doente. A caixa de ferramentas permanecia imóvel. A poltrona onde ele se sentava e a casa, por detrás do alpendre, um pouco mais caída. Como um enorme tempo puído.
Caída a noite. O velho movia devagar para a cama, após uma frugal refeição. A vela apagada. Um luar inundava-lhe o quarto pois que lhe entrava pela janela. Zorro, o cão, velho como ele, deveriam ser duas da manhã, quis latir. Rouco, mal inundou a noite com três ou quatro ladrares. O velho que espreita para a pequenita eira de terra defronte. O luar que inundava e dava para ver uma mãe vestida de farrapos e um menino de colo. Parados. Bem no meio da eira.
Quem está lá! Então a muher aproxima-se e em dando com as escadas do alpendre, ajoelha bem no primeiro lanço de casa. E diz. Por favor! Albergue a mim e ao meu filho já que não há nada mais para nós no mundo. Mas o velho! Albergo! Pois albergo! Mas que a minha casa está em ruínas. É das minhas pernas e dos meus braços e desta maldita velhice. Já não sou ninguém… não se aflija que eu posso bem com qualquer trabalho de homem. E dito isto, Zorro, sossegando, deitou-se outra vez a dormir.
Como se chama o seu filho? Este não é meu filho, é apenas um bebé que eu tirei do rio, alguém passara na ponte e o atirara borda fora, digo eu, que não vi, mas o menino, o menino ali estava, encarquilhadinho e vermelho de raiva…

Nuno Monteiro
“ A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”

António Lobo Antunes

Prémio Histórico - Filosóficas