segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A Rua


(...) A bondade é uma enorme construção fragilizada e de peruca – por debaixo da tão beata bondade jaz sempre uma cabeça careca imensa e um medo abrasador…


Noutro ponto da mesma rua uma rapariga de cabelos flamejantes. Acena os braços finos e sinaliza todos os faróis… Acaba de encontrar um menino selvagem esbracejando no lixo… e então a rapariga de cabelos ardentes. Olha enternecida enquanto preenche os papéis da adopção… sorri a rapariga dos cabelos (). Pega na papelada preenchida e


de sopetão que é só bravura


voa para o pé do trastezinho… aninha-se para o pé do menino… enternece de ternura uma multidão de infiéis! Carrega naquele momento todas as suas provas e
Quando lhe conta uma estória quando lhe sussurra ao ouvido sente os dentes rangendo sente a alma do menino em ebulição


E


Então ela não pára! Então ela não cessa! As sarças ardentes atingem as portas do céu… toda a água do mundo a inunda e a purifica


Porém


De repente o trastezinho move a face e (sem aviso)


Quando ela pressentia o beijo


Ei-lo de boca cheia de sangue! Ei-lo ganindo e fugindo … cospe o pedaço de carne da face da rapariga e nesse instante
Todo o fogo no cabelo morto (...)


Nuno Monteiro
“ A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”

António Lobo Antunes

Prémio Histórico - Filosóficas