segunda-feira, 29 de junho de 2009

As baratas...


Certo dia ouvi ou li o seguinte. A ver se concordas. Que quem professa maldade adquire a cor plúmbea do céu em dia de chuva. Tenho visto muita gente… tenho avistado imensos corvos. Imensos pássaros. Mas não tenho certeza de alguma vez ter visto alguém de chumbo. Ou da cor do chumbo. Já se o chumbo se metamorfoseasse e se em vez da tez surgissem baratas. Baratas assustadiças. Então assim já temos acordo. Então assim porque dessas tenho eu visto em imensa batalha. Em imensa agonia. E algumas com asas. Que escarafuncham como se tivessem pavor da luz. Tendo um pavor doloroso da luz. Esgueiram pelos chãos de todos os males. E assustadas eternas pois não sabem o que fazer para voltar a nascer. Nem saberão que morrem. Nem sabem que estão vivas. São baratas. Podem desaparecer esborrachadas. Sem que ninguém delas se compadeça. Porque as baratas não contam. Não assustam. Não se instalam entre nós. É como se de uma condição de degredo…


Nuno Monteiro

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“ A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”

António Lobo Antunes

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