Em certas madrugadas, encontro dias que se suicidam quando, de rompante, eles se deixam sufragar em mágoa cinzenta de chuva leve. Ao escuro da noite, lá no ponto cardeal, desponta uma luzita que és tu e então digo Bom dia pequenita mulher, como estás! E a madrugada é só arrebatamento, uma irrequieta passarita que pavoneia. Corre o tempo, devagar, tão depressa. Eu? Estou bem muito obrigado e logo ruboriza, um rubor escarlate como cabelos de poesia, como uma madrugada com seis horas, olhos atentos, bulidores, ainda vencedores. Fica muito espantada, a pequena sereia quando eu lhe digo que também eu, não sou como os outros. Eu sei que dentro dela há muitas vidas, há enormes vagões que se lambuzam vagareiros por essas estradas de montanha. Sei também que a madrugada, ao crescer, cedo a avisará que se deverá decidir por um caminho… Súbito crescem as nuvens e o fio de cabelos esconde. É o prenúncio. Uma breve luta e a moça agora sente medo. Não tenhas medo, sê tu própria, mas a moça qual quê, o medo cresce e abunda-a, ignora-a enquanto a torna prenha. A madrugada está perdida. Tem apenas lugar uma mecha de tempo, durante o qual a mão, pequena, redonda, raspa por um medronheiro e tira cinco ou seis desses frutos. Em vez da ciganita que poderia ter sido, sufraga pelas areias do deserto. A madrugada despontará dia, cinza chumbo e haverá uma moça, de tantas que poderia ter sido, uma quedar-se-á, cabelo escondido, apanhado em caracol, E se essa escolha ocupar lugar, uma mais como tantas, dentro dos olhos dela, morrerão esses mirones verdes sonho com que um dia, cedo na madrugada, se quis insinuar…
Nuno Monteiro
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Vidros derretidos
Haverá um dia, seja um dia de chuva, uma espécie de Outono miúdo, e então acontecerá, a ventania cravejar-se-á contra a tua porta como punhal e tu cavarás um poço de medo, bem no centro de ti,
(por toda a vida corre uma tinta de desgaste um fiozinho de lágrima)
rodeia-te a escuridão e o desassossego apesar das cores e das pétalas, tragar-te-á, esse poço e tu ditarás gritos mudos para uma espécie de papiro antigo, um livro inútil, uma espécie de literatura falhada que te iludirá, que te comandará, que te ditará uma única lei. Foge. Vive uma vida de fuga, de deambulação, de tristeza melancólica, fecha os olhos, senta com ela, a estátua dos teus sonhos, olha-a nos olhos e cinzela-a com tuas mãos nuas, prenhas. Enquanto foges. Sê breve, curto, surreal. Sai pelas ruas, em agonia, cumprindo etapas, apanhando do chão as cores vermelhas da morte.
( a humana urbe um local vazio, pendente, ofegante)
E então serás um descrente, uma luz intensa que desapareceu no breviário da noite. Do poço, bem do lodo do fundo gritarão em turbilhão todas as maldades do homem e todas te atingirão, como freios, vermelhos de dor, nessas manhãs invernais donde sairás jamais.
(Já me não lembro do último comboio…)
Nuno Monteiro
domingo, 26 de setembro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Os homens que teimam em não acordar às quatro da manhã
Quatro horas, dentro em pouco acordaria, levantar-se-ia, estaria sozinho em casa, um lúgubre casebre e sabia que nada haveria para comer e nada haveria que escrever, sabia incessantemente que ninguém haveria para conhecer, sabia, fora de tempo, que nunca apertaria a mão a estátua alguma, não conversaria em castelhano com poeta algum, não visitaria pintor esquálido ou qualquer artista de circo.
Quatro horas, acordasse?, ligaria a luz, não!, não a ligaria, não adiantaria pois ela não acenderia, não pagara a conta da luz, há quanto tempo deixara de ter dinheiro?, por dentro dele, a solidão e a fome e o frio. A santíssima trindade… Não serão as três a mesma página? Em meio deste Outono, não consigo vender um único texto, não consigo vender palavras então por quê escrevê-las, talvez por casmurrice, ou talvez por sorriso, infortúnio, desprezo.
Quatro horas, que mania de escrever o que nada alguma vez haveria para escrever. Talvez por isso, talvez por se ver inclusive despojado de princesas e de momentos de alegria, talvez por se ver cercado de frio e fumo, talvez, ou talvez não.
Cinco para as quatro horas, é o filho de Pedro Páramo quem com ele priva, és tu que insistes em viajar até Paris? És tu quem insiste em mendigar em Paris? És tu quem insiste em fugir com uma ciganita de longos olhos com cor de caramelo? És quem se faz passar por Homem mais Forte do Mundo? És quem quer matar meu pai, o ignominoso Pedro Páramo?
Não para todas as questões, sim para todas as questões, um minuto para as quatro da manhã e os telhados da minha amada cidade estão imóveis, aguenta-os uma neblina maldita que não é mais que o sustento da sagrada família. Em que mundo julgas que vives? Não saberás que há muito aconteceu a minha morte? Olha, esgotou-se o teu minuto. Afinal não és eterno. Todo o pasto dos homens está em chamas. Há apenas um carreiro e esse está ocupado a ferro e fogo pelos arcabuzes em ferrugem, fugidos dos céus azuis, pintalgado como um balão remendado por lendas de folclore e teatro de rua.
Não, por favor, não te vás ainda, ainda te não disse meu nome
Nuno Monteiro
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
A filha de Jesus Cristo verterá filhos e lodo para esta terra
Enquanto lá fora, nas ruas, os ventos outonais arrancaram as primeiras folhas, surgiam os tons vermelhos e acastanhados, numa espécie de absolvição da vida ou confronto com a terra, ei-la, à consagração e ao altar; foguetório em surdina , nessa noite descerraria a estatuária e se manteria, alargada e bruta zombando dos olhos.
( em alguma casa modesta alguém afirmará tão tarde na noite, há um escultor que suplantará todos os outros)
Os pés vazios mantinham-se numa angústia por detrás das vidraças da casa, suados, esquálidos olhavam a cidade envolta nesse outono, detinham-se no cabelo encharcado e no vulto dos castanheiros que se inclinava incerto. E nessas alturas, por que não poderiam as mãos destrancar as portadas e abandonar o éden? Sim, quantas e quantas vezes, a filha de Cristo, a dona desses pés esquálidos quisera atirar essa batina ao chão e, abraçando o anti-cristo, viver alagada, cruzando os tons vermelhos de sangue e do Outono, até carregar no ventre, até à saciedade.
( o anticristo virá fecundar a terra com milagres, alguém o dirá numa casa modesta )
Nesses dias, cruzados de chuva e vento, nas noites em que, zombeteira, se vestia com uma batina preta, deixando os pés vazios, vagueava pelas ruas monumentais tacteando as cores e as texturas das pedras, nesses dias, dorida, ergueria uma babel de livros… Por vezes, de noite, cruzando com olhos de outras etnias, algum castanheiro a interpelava ao caminho e a beladona, com um esgar de mão o afastaria, logo depois mudasse de passeio. Outras vezes, estacada, era capaz de fechar os olhos e sorver o ar, carregado como estaria desse primórdio dos tempos; a pouco e pouco embruteceria, da terra no ar, desse sabor de nudez.
(os lobos do fim da rua enovelam-se numa algazarra do cio)
Acordada do sonho e lambendo ainda a seiva da terra molhada ouviria ao longe os alvores do circo, havia uma batina preta que a encerrava e esquecidos e tombados, ao fundo das pernas esguias, os pés esquálidos que lhe traçavam o caminho.
O “meu reino é apenas deste mundo” dirá o anti-cristo, se alguma vez a abraçar. Este é o mundo que toca e foge, a verter humores, sempre a verter humores, nas breves risadas e telas vazias…
Nuno Monteiro
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
A Óscar Málaga Gallegos
Vive nas asas de glória de uma tenda tuaregue. E porque é eterna a infância, houve um sorriso e um beijo, um abraço trocado; crescido, as asas e um vento dali o levaram, hoje, um grande senhor, um homem garboso, esta é uma noite, estrelada, ao deserto, ele revive enquanto chora. Tem rugas no rosto embora por dentro ainda seja criança, o vento empurrou-o para uma mágoa de ter crescido…
No dia seguinte partirá, afrontará a distância e levará as saudades para um qualquer outro local, enriqueceu; que interesse para mim tem todo este ouro?, ainda que tivesse mãos de artesão e com elas pudesse trabalhar o rosto da minha princesa, ainda que assim fosse, não seria o rosto da minha princesa, porque o ouro, do brilho intenso, não sorriria incerto como o rosto dela. Bebia dum trago e num sufoco decide; batendo as mãos, madrugada, de imediato vinham até ele dois lacaios, lacaios! Ouvi bem, mandai homens com cavalos, na direcção dos pontos cardeais, procurai a minha amada, mandai ditar prosas pelo chão, dizei avisos, eu esperarei eternamente, a minha tenda, preta de dor, viverá à deriva, nas areias salgadas e ardentes…
Pois que a encontrem, então, por esse mundo fora. E que se não deixem abater, os valorosos cavaleiros do senhor, já que a tenda, a casa, vive de saudade, vive de cantigas, vai constantemente ao encontro de outras paragens, deambulando como louco, vazio e arenoso, calado ausente.
Os olhos pousam nos outros olhos e sempre que esses outros olhos apagam, Pedro, que é Rulfo da parte do pai, crê-se a ele próprio vivo pois que as asas que o impelem, cegas, não têm lugar num mundo como este… sobrevive escondido por detrás das túnicas pretas do deserto, num desassossego de tragafogo.
(Há tantas pequeninas histórias de saudade), olhai, lá parte o comboio, mas, embrulhada num livro, eu bem a vi, o que é que a mim me escapa, eu bem vi, Maria Romaninoff, a pequena princesa russa, embarcando, dona de um vestidinho de lantejoulas brancas, a via láctea pontilhada, carregada ao colo como só ela entrega de mamar ao filho.
Nuno Monteiro
sábado, 18 de setembro de 2010
Do que eu vou lendo...
(…) E o Homem Mais Forte do Mundo, docilmente, seguiu Dom José, que regressava à sua caravana.
- E qual é o seu milagre, Dom José?
- Saber falar, saber dizer as coisas no momento adequado, é esse o milagre mais importante do mundo, Homem Mais Forte do Mundo, aprende.
- Mas desculpe, Dom José, nisso das indulgências, do milagre, creio que o senhor mentiu.
- Dom José olhou seriamente para o Homem Mais Forte do Mundo, pôs-lhe a mão direita no ombro, sorriu.
- Recorda toda a tua vidinha, a verdade é apenas um problema técnico.
O Segredo da Trapezista, Óscar Málaga Gallegos, tradução de Jorge Fallorca
- E qual é o seu milagre, Dom José?
- Saber falar, saber dizer as coisas no momento adequado, é esse o milagre mais importante do mundo, Homem Mais Forte do Mundo, aprende.
- Mas desculpe, Dom José, nisso das indulgências, do milagre, creio que o senhor mentiu.
- Dom José olhou seriamente para o Homem Mais Forte do Mundo, pôs-lhe a mão direita no ombro, sorriu.
- Recorda toda a tua vidinha, a verdade é apenas um problema técnico.
O Segredo da Trapezista, Óscar Málaga Gallegos, tradução de Jorge Fallorca
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
O alforge do Senhor
António, leva lá o vale à senhora e diz-lhe que é para mim, ela consegue ver-me lá do longe, mas se não, diz-lhe, diz-lhe que é para mim, e então diz o meu nome, repete aqui como terás de fazer lá, e ele dizia o nome, diz-lhe também que eu sou a tua mãe e que tu és o meu filho, e que tens que mostrar este cartão, não te esqueces, este cartão, este de plástico, e com isso calou-se, a senhora, enquanto olhava o filho que lá ia, rezava tanto quanto sempre havia feito, ele há-de ser capaz, ele terá que o conseguir um dia, e lá por dentro, preocupada, Jesus como eu estou velha, como será quando estas minhas pernas de velha não me deixarem vir aqui sozinha, como será a vida deste meu filho que não consegue sequer dizer o meu nome, que não sabe sequer que eu sou a mãe dele; quem a olhasse havia de ver a lágrima que não pôde reprimir, quem olhasse deveria ver a dor. Mas não, os que olhavam, viam apenas sujo, o borratão negro e amolgado.
Ao balcão, o menino, muito a custo, vinha levantar este dinheiro para a minha mãe… eu sou o António e aquela senhora acolá é a minha mãe, é velha e não pode mais dos joelhos, por isso venho aqui eu, por isso estou aqui eu, quer ver, olhe, este é o meu cartão, foi a minha mãe quem mo deu… um sorriso na face da senhora, não preciso, vejo daqui a tua mãe, olha arruma bem o dinheiro e dá um beijinho na tua mãe por mim e diz-lhe que tudo vai correr bem… o menino metia o dinheiro na algibeira mas logo de seguida, desgraçadamente, esquecia tudo, esquecia a mãe e o dinheiro e sem dar acordo de si, descia a rua em vez de a subir para onde estava a mãe; outro pingo de lágrima no olho, a pobre senhora, uma vez mais, gritava e corria e corria e gritava, o meu António, o meu António… e os que olhavam, que viam apenas sujo, um borratão negro, mais amolgado, afastavam-se para dar licença. Segredavam entre eles, coitada da senhora. Porque a casa não era a deles. Deus me livre e guarde. Era o que diziam todos…
Nuno Monteiro
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
A mexicana maior
Precisava de mais alguns centímetros! Deus não lhos concedera. A altura e mais uns quantos atributos. Dera-lhe a graça e a destemperança. Emprestara-a ao diabo e por lá a esquecera. A moça, recostada numa mesa de black jack, olhava a mesa e pelo canto do olho mirava-o. O seio arfava, desinquieto, por dentro do espartilho… pesava nas noites anteriores sem sono, cansada, habitava nela um truculento azedume, uma faca rútila, um leve rubor e um fervoroso clamor quando
(Arrancando os pés, empurrava as pernas, esticava-as, media-as, dependurada da cruz, julgando saber… oh deus que me empurraste para a tumba onde mora o diabo… a mão e os anéis, as unhas pintadas de voz, uma garrafa de mescal, uma cinta apertada e na coxa, folhas vermelhas dum Outono irreal )
Tenho medo quando me descubro ao espelho, deve ser afronta quando corro descalça e os cactos me bicam, Espelho meu, espelho meu, haverá alguma mais… há algum tempo se não sentia… interrogativa, nada sentia quando as mãos próprias a tocavam… e o seio mais ainda arfava, comprimido e suprimido ante uma inesperada agudeza do real, num golpe de dor, sombreava os olhos e bebericava os lábios, mordiscando-se piscava-o, surda, ofendida, enforcada. E agora,depois de tantos anos, quando para sempre lhe faltavam uns centímetros, ali na mesa, senhora dum fado viúvo, fortuito, ilharga dura e bamba, que lhe importava se perdesse, se o moço que ela trazia em vista lhas mirasse e as revolvesse, com mãos ambas, de prestidigitador.
Ao diabo o que é do diabo e eu, quadro meu, sei bem o que sou.
Nuno Monteiro
domingo, 12 de setembro de 2010
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