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quarta-feira, 24 de junho de 2009

pergaminhos de moralidade


Enquanto assobias uma canção despreocupadamente. erguem mais um muro que separa o outro mundo do nosso pleno mundo. Dos nossos pulmões dos nossos frutos maduros. Enquanto te aquietas com uma febre e derretes tudo o que se move com frascos e boiões de pastilhas. Te não importes porque viverás eternamente. Te não importes porque haverá sempre quem limpe as teias de aranha. E todo o restante mundo trabalha e trabalha e trabalha. Todo o restante mundo tanto do restante mundo. A neve está para chegar não te apoquentes. e uma tão grande quantidade de mundo aquiesce e chora. Não te seguem e voltaram-te as costas. Quando te dizem que não precisam de ninguém não sabem o que dizem. Nunca estiveram tão desesperados. Também não estão à espera do messias. Há um jugo de razão que corta como faca vagalhão. Há um jugo de desesperados…
Julgaste inatacável porque contribuis com uma migalha para a sociedade das nações. Mas fechas os olhos e assobias para outro lado. Ris abertamente da vida que te foi dada viver. Ris. E esse riso é a tua estrada. Não precisas de ninguém. Os teus sonhos são para cumprires sozinho. Nunca viste cair ninguém. Nunca olhaste. Nunca procuraste olhar.
Estás ciente de que há justiça no mundo. Tornaste-te um cínico e um hipócrita. Porque compras bens de elevado preço. E entregas a moeda ao pobre que te espiga a mão. Não tens raízes. És cidadão do mundo. És da cor da tua maquilhagem. Tens a palmilha da tua máscara. Dizes que não queres ver de que cor são as feridas e a diarreia. de que sabor são os furúnculos do esquecimento e da fome. E não vês porque te agoniam. E então pretendes estar tudo tão bem. Crês nas ilusões que te deixam tão bem disposto. És um produto és uma falácia és um pequenino papagaio que se comporta como uma estrela. Enquanto assobias tão despreocupadamente. Alvas os braços ao centro da chuva. E escorre medo como se fosse agonia.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Aura de cansaço


Chegou com a fúria que sempre lhe assistiu e disse como se pela primeira vez – pudéssemos nós ser livres e tudo voltaria imediatamente ao início dos tempos. E após retirou-se com a ansiedade que sempre o assolara, retirou-se e enjaulou-se defronte do espelho, com a fúria latente engolida havia tanto tempo, com o verbo para sempre calado e um hálito ácido do alho com que se banqueteara ao fim da manhã, durante o almoço. Nem aí pudera ser livre. Fora um almoço espartilhado por todas as convenções sociais de que há memória. Todas as convenções ali confluídas para o fazer suar, para o engaiolar e para o fazer corar, obrigando-o ainda por cima a discursar coisa que detestava e ele sem nada para dizer – quão horrível é não ter o que dizer. Sem ter nada para dizer.
Pudéssemos nós ser livres e tudo voltaria imediatamente ao início. Livres de quê? Livres de quê! Livres da soberba que nos move, livres dos medos que nutrimos, livres da falta de dinheiro e livres dos patrões, livres dos empregos e das regras sociais. Livres das cores dos baptizados que todos nos impingem, livres das moléstias e dos cansaços do final dos dias, livres das horas de sono e de vigília.
Pudéssemos nós ser pássaros e tudo voltaria ao início, ao denominador comum da vida sem homens, a ausência de transformações da era dos homens nesta nossa esfera de caos e um mundo dominado por pássaros. Os pássaros do paraíso e todas as florestas em cada um dos seus lugares, todos os recifes de coral em cada um dos seus oceanos, todas as montanhas altaneiras que se transformam em bastiões, todas as insígnias realmente simbólicas num simbolismo sem homem. E homem sem igual.
E aquilo foi quanto bastou para que toda a humanidade lhe caísse em cima. Jorraram críticas de todos os sectores, brotaram sevícias de todos os quadrantes e embora houvesse alguns tímidos que o tivessem percebido, esses tão poucos tímidos assaz inteligentes, esses foram sufragados por uma urbe inquieta em constante penúria, uma montanha urbana de intenções e insinuações que de uma leva só, qual tempestade de areia ou ciclone de grau oito os tivesse dali varrido e quem medrou foram os vitupérios e os escandalosos sacrílegos da ofensa vã, os merdas miudinhos incapazes tamanhos. Esses gigantes que medram sempre e que dominam ardentes os altares da ignomínia e que asfixiam, os gigantes calçados assolapados que dum pranto só, cobrem de vergonha os poucos letrados que tanto pedem para trabalhar.
E que têm esses contra a justeza de uma liberdade autêntica. Têm tudo porque para todos serem livres teriam eles que abdicar das mordomias que os elevam como se navegassem sob balões de outros entes transformados de vidas humanas. E como haveriam esses tão poucos de viver então, na ausência de criados e no precipício de ter que cozinhar e de ter que trabalhar para ganhar algum.
Pudéssemos nós ser livres para agirmos como seres humanos. Deixássemos nós de ser formiguinhas de trabalho para outrem e então perder-se-ia a humanidade mas ganhar-se-ia de novo a condição de homem. Da forma como tudo está hoje conta apenas o sofrimento de uma condição humana que é nada mais que servidão humana.
E a fúria que todos lhe conheciam e a ansiedade que todos lhe negavam diziam-me apenas aquilo que eu queria ouvir – que o sujeito era um semelhante e que se cansava muito mais porque olhava para lá do mundo para os campos de uma outra matriz ideológica onde todos fossem tidos como iguais. As rugas e os cabelos brancos provavam o resto. E o homem que ali se escondia era mais um pequeno privilegiado. Um pássaro privilegiado porque irmanava dele uma aura de invencibilidade que nem a olheira funda da sua visão de águia cansada conseguia suprimir.

Nuno Monteiro

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Para os meus alunos - uma lição de humanidade!


O mundo enfuna as velas de um sorriso inócuo e caminha em frente, desgarrado do seu passado e tão imune quanto obcecado. Num autismo desgraçado. Vivendo ou sobrevivendo numa dualidade tão vincada - sintoma de alguma patologia grave. O homem não consegue viver sem a sua indústria colosso de soberba num iate que não poderá singrar vivendo dela. Daqui, deste facto que se insurge cada vez mais como certeza, sai um homem cabisbaixo, desapiedado, egoísta, ignóbil. Senão vejamos:
que dirás tu dos grandes desastres ambientais a que temos de forma tão incólume e que tanto prejuízo e dolo têm causado num mundo que nos gerou e nos mantém!;
que dirás tu das fortunas colossais e dos pobres colossais que pululam por esse mundo feito abismo;
que dirás tu da perda de valores e da dessacralização da vida a que os últimos cem anos têm tão fatalmente assistido?;
O mundo empurra as velas e parte em busca de mais e mais uma pegada que engolirá terras e mares e cedo procurará novos mares. Parece não ter fim a ânsia de soberba. Parece sem fim o ego humano.
Nesse contexto o aquecimento global é uma das faces de uma moeda tão especial – caracterizada por isso mesmo – ter tantas faces mas que radicam no estilo do homem. O eterno desejo do homem de ter mais, de sentir mais, de ver mais, numa espiral que cedo se concluirá bastarda, surge já denunciado na literatura e na música. Como sempre, primeiro as artes. E como quase sempre, enquanto nas artes, haverá ouvidos de desatenção e olhos descrentes. Haverá cegueira. Vacuidade e inocuidade. Quão perniciosa. Especialmente para ti que não nasceste ainda. Ou ainda para ti que te não formaste ainda.
E esta é uma carta dirigida a todos os homens que não terão percebido ainda quão dura será a vida depois do ouro negro. Depois do fim. A todos os zelosos pagadores de impostos e a todos os cumpridores destas leis tão injustas. Sabei que nada fazer apressará o fim. Sabei que todos os nossos empregos se perdem por um e só um motivo. E esse motivo é um falso valor, um não valor. A descrença no simbolismo intrínseco da espécie. A única canibal de si mesmo. Que não olha a meios para atingir os fins. Devereis perguntar a vós próprios para que serve um carro que não anda ou um barco que não navega ou ainda um almirantado sem aviões. Ou para que servirá uma casa despida de gente! Devereis inquirir junto de vós próprios o que significa viver três vidas dentro de uma só. O que é desbastar três terras em vez do quintal que te deveria caber? Como te sentirias se te enfiassem resoluto num avião sem gasolina? Acaso julgas que planarias? Ou quão ignorante pensas tu ser na gestão do meio ambiente que desgarradamente te vai faltando e fugindo a cada nova chamada. Acaso julgarás que não tens tu também a tua quota-parte de culpa? Ou quererás com pundonor continuar culpando os outros? Em meio disto tudo calca omnipresente e omnipotente a ignorância de que todos somos feitos. O desconhecimento! A falta de educação! Que é tão necessário reconhecer. Doutra forma restará apenas o desalento. A desilusão e o choro. Pobres e mendigos e escravos e explorados. E mais pobres e paupérrimos junto de um futuro que fenece e de um presente sombrio cinzento dos dias que correm chuvosos. Será das alterações climáticas? Ou será do homem? Ou ainda dos desertos que te levaram a terra e a família? Ou das colheitas incertas e o lucro que não existe. A falta de dinheiro e o apodrecimento das hipotecas. E da falta de pagamento surge o primeiro banco falido. E depois do primeiro há todo um chorrilho de lamentações junto de mais e mais falências. E se os bancos não arrastassem as indústrias! Das indústrias à fome trava-se uma batalha tão pequenina. Fome! Essa triste canalha. Que condena ao infortúnio. Essa fome que forja do aço mais e mais escravos e abismos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Insigne república


De súbito cessou a vontade. Ergam-se espelhos e aclamai o amanhã. Sintamos o presente enquanto ele cá está. Qual poesia qual pequeno andrajo. O mundo é dos loucos eflúvios durante os quais tu fazes fortuna. Com bocados de papel e um sorriso de esperança. Quem tem espaço para ler poesia? Onde parará o fogo que puxa por nós? Queiramos ser gente sem ter um tostão. E alberguemos o alter que é o nosso positivo amigo. Cessou a vontade de escrever e então faço natureza. Dou asas a mim mesmo e serei borboleta doravante. Porque delas eu quero as cores e o voo. Delas eu engendro alguma nova pátria onde todos olhem e parem e sintam e cheirem. Porque de súbito cessou a vantagem. Cessaram os livros e os dicionários. Cessaram os berros dos idiotas que me contaminam. Fumemos. Fujamos. Alcancemos o céu montados nesses burricos que como carreiros se erguem fronteiros entre fragas de pinga-amor e descalcemo-nos, viremo-nos do avesso até que o sol se ponha. E gritemos que o que somos, o mais que sofremos, todos os nossos fantasmas são infinitos eus rarefeitos ou contrafeitos na magia do entardecer.
Quanta razão precisarás tu de ter? nem uma. Chega-te a vida e um bocado de pão. Uma elegia do futuro na minha pena tão sofrida. E para que trazes o sofrimento? Que falta cá faz. Pinta da cor amarela. Que é a cor do sol. Ou pinta de rosa que é a cor do sonho. E já que sonhas quanta razão podes encaracolar de volta da espiral que te é mastro e alforge, sombra e farol, elegia e beleza. Quanta! Infinda. A vida não ocupa espaço. Como o som da poesia não ocupa tempo. Abeiremo-nos do penhasco e ouçamos o resfolegar do mar. ouçamos o crepitar da lareira. Ou a chuva daninha que zomba da pedra quando a afoga!
Quem tem corpo imenso para olhar e sorver poesia? Quem deseja outra vida que não a da borboleta. Quem quererá ser chuva sangue e suor! Por mim já o repeti. Cego ao olhar para ti, musgo da encosta. Emudeço de chapinhar tuas águas rio de montanha. Ulisses ele mesmo em meio de trombeta ouvia as pedras que torpedeavam das montanhas e caminhou por sobre oceanos de insignes figuras.
E esta república, que reparo nos merecerá? O horror das entranhas. As vísceras dum porco. As borras do café, que eu retiro do rio, cedo na manhã. As borras do vinho que beberei contigo em alguma fraga pedregosa olhando o Douro de manhã bem quente. Casa vazia onde se tratam banalidades. Como um deserto de ideais, como um amanhã sem revolução. Será isso talvez. Um torcicolo e um hemiciclo o vermelho e o verde e o “patois” que eles julgam que falam lá do alto do palanque ou sentadinhos na cadeira.
Nuno Monteiro

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Aula de Psicologia

Quando os meus alunos me pediram que fosse professor deles julguei que brincavam comigo. Houve uma altura em que me pediram que fosse o professor deles. De Psicologia entendamo-nos. Porque de Ciências Naturais já eu sou. Disse-lhes logo que não saberia ser professor de Psicologia. Que nada percebia do assunto. E eles voltaram à carga. Uma aula de trinta minutos apenas. Para ser filmada e incluída num trabalho. Para dar ao professor de Psicologia. Ao verdadeiro. Um trabalho que entregariam no final do período ao professor de Psicologia. Sem que ele sequer o tivesse pedido. Depois há toda uma comunicação social que se pronuncia contra os alunos. Não devem ser os mesmos. Adiante. Não pude dizer que não! Tive que preparar a aula. Que trabalheira! Ainda me disseram o título. Queriam que eu lhes falasse sobre relações interpessoais. Ou algo que o fizesse valer. Também os não poderia desiludir. Imperioso seria estudar. E bem. deram-me o manual de Psicologia. E disseram pode estudar por aqui! São atrevidos estes nossos alunos de agora! Não gostei. Não gostei do manual quero eu dizer. Mas li-o de relance. Por ali não me safaria. Havia que aprender de outro modo. Havia que saber mais. E teria que o fazer. Socorri-me dos meus livros. Socorri-me dos meus heróis. Socorri-me dos meus romances e dos meus ensaios literários. Onde mais se vai buscar Psicologia. Onde mais se podem observar procedimentos humanos. Em que outro local se aprenderá mais e melhor?
Com vossa licença, tentarei deixar aqui escrito o que naquela aula me saiu quase de rajada. E não falarei por minha boca. Falarei pela boca de outros. Falarei por interposição de livros escritos por outros. A mim o privilégio de os escolher. A vocês o dever de ajuizar acerca das minhas escolhas…

Julgo ter sido Dostoievski quem terá afirmado que só a beleza poderá alguma vez salvar o mundo. Que o mundo precisa ser salvo já todos sabemos. Que já no tempo de Dostoievski ele precisaria ser salvo… Talvez tenha precisado sempre. Não quero aqui discorrer acerca da afirmação do escritor. Ele lá terá as suas razões. Por meu lado eu acrescentarei se me permitirem que só com muito boa vontade poderá alguma vez a beleza salvar o mundo. Porque a beleza se subjuga à vontade. E a vontade humana. Que dizer da vontade humana! Acrescentarei e deixarei à vossa consideração se deveremos acreditar por um instante que seja na boa vontade humana! E sem responder afirmarei que julgo que entre os homens se erguem assustadores muros de indiferença. E esta indiferença é perigosa porque te pode um dia deixar a ti leitor encostado a um canto sem ninguém que sequer te ouça. Quanto mais se agitam os pauis mais crescem os rituais de indiferença! Alguém deu conta da ofensiva na faixa de Gaza? Quem ousou falar? de que valerão algumas declamações diplomáticas? O mundo deixa. O homem consente. O mundo é feito de indiferença. O mundo dos homens. daí que eu conceba um homem sem beleza.
Há um poema do Borges onde se diz que os justos irão salvar o mundo! Pois então que surjam os justos. E que vivam de justeza! Onde caberão os justos? Quantos serão! E em que canto obscuro estão? Tratados ficaremos então acerca de justiça.
Mais arrasado fiquei quando li algures num texto de Adolfo Casares que “…escrevo para mim, escrevo para mim próprio já que ninguém mais me lê! Percebo perfeitamente o desabafo quando sinto que os leitores passam os olhos mas não entram no texto para se não virem a arrepender. Como se o texto fosse arame farpado que os magoasse. Lá estão então os rituais de indiferença de que vos falava há pouco.
Continuemos com Saramago no discurso de atribuição do Nobel na academia sueca. Referindo-se à avó dizia ele que ela, pressentindo morte terá mostrado quanta pena sentia por morrer. Pena não medo. Pena da beleza do mundo que deixava. Então se o mundo é um lugar belo – afirmação indiscutível é o homem no trato com o homem que o estraga. O mundo do homem é que é um mundo não belo. Desse ponto de vista poderemos todos ser filhos do diabo. Pois este é incomensuravelmente feio. Da beleza deveria nascer a beleza. Se não há beleza há diabo. Então o homem vive enclausurado num inferno. Contradigo-me! Talvez. Não há ninguém que se não contradiga. Ainda Saramago “…em cada elefante convivem sempre dois elefantes…” “…o elefante que quer aprender e o elefante que se recusa…” apesar das aspas não sei se as palavras serão exactamente estas. Mais que as palavras importará o sentido da frase. Dos dois elefantes qual tem ganho? Se o mundo fosse um lugar aprazível. Mas o mundo dos homens está longe de o ser. Daí que a resposta seja óbvia.
Lembro-me agora de Camus na Peste. Orão cidade de súbito ameaçada e de quarentena. Parábola para um mundo enfermo. Quantos são os homens? Caberão numa mão cheia. Palco mirífico para observação atenta das relações entre os homens. Uma palavra apenas para o espírito do Dr. Bernard. Personagem ficcionada duplamente pois ela é uma transposição dum desejo do escritor. Na sua imensa crença pela bondade humana. Na sociedade dos homens não sei se o espírito do Dr. Bernard existirá! Pergunto-me se haverá, da parte do homem, confiança na humanidade.
Max Pagé, autor escreveu algures que o homem está em estado de permanente não indiferença, de disponibilidade ou de receptividade. Depende do objecto a que esse pretenso estado se refere. Se se referir ao outro ser humano nada haverá de mais disparatado. Com que disponibilidade estaremos nós no Darfur?! Ou quase em toda a África?! Ou no Afeganistão?! Ou na Palestina?!
Pensando um pouco mais adiantemo-nos na escala cronológica viajando para trás até encontramos o padre António Vieira no seu sermão aos peixes. Os peixes grandes comem os pequenos. Numa poderosa alusão à sociedade de então. Quanta imutabilidade a da nossa espécie. O sentido que o padre quis dar ao verbo é o da indiferença. A indiferença que grassa sem medida entre nós.
Ou então detenhamo-nos no Eça de Queirós que deixou escrito algo muito parecido com o que vos transcrevo. Contava ele da família que reunida à lareira comentava os dissabores do vizinho do lado e ouviam-se um pouco por toda a sala exclamações do género – Que horror! Quando se contava que na Indochina morriam milhares alguém exclamava – Onde fica a Indochina! Confesso que esta imagem me aterroriza. Primeiro pela ignorância que encerra e depois pela indiferença. Como se a vida humana fosse só a vida do quarto do lado. Enfermidade da sociedade. E outra vez Saramago quando se revolta para afirmar que na sociedade falta ponderação, crítica, filosofia. Falta discussão aberta e fraterna. É o outro lado dos muros de há pouco. Da indiferença à agressão viaja-se tão pouco. Direi mesmo que se não viaja pois a indiferença é, quanto a mim, a forma mais vil de agressão.
Caminhando rapidamente para o fim…julguem sobre se haverá alguém perfeito. Se não então a admiração que possamos sentir será sempre uma admiração relativa. Os homens desiludem amiúde. No acto seguinte poderão iludir mas infalivelmente virá de novo o momento em que desiludirão. E acerca da desilusão e da perda julgo pertinente recordar aqui mais uma figura que é também mensagem doutro grande livro doutro grande da literatura. A linha de sombra é a chegada à idade adulta. E essa chegada acarreta uma desilusão com a qual é necessário aprender a viver. Fará parte do processo do adulto. Num outro romance Conrad descreve um homem, um homem quase desconhecido apresentado quase como se fosse um deus e um outro que caminha no seu percalço. Esse homem grande tem nome. Kurtz. E se de início era tido como um gigante, a pouco e pouco, à medida que a trama se desenrola, vemos surgir um homem pejado de defeitos, que paulatinamente se apaga até acabar numa morte infame quase cobarde. Este poderosíssimo livro tem o condão de nos apresentar a cobardia. E é tão bem escrito quanto deixa no ar a sugestão de que todos temos um pouco de cobardes.
E então quão cobardes seremos na descrença? Quão cobardes seremos na rejeição? Quão cobardes seremos no abandono! E na perda! Todos estes são primos aproximados da indiferença.
Reflictam sobre o que aqui foi apresentado. Não quero que comigo concordem. Mas exijo que comigo pensem e reflictam.

Nuno Monteiro

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Capelo de andanças


Lá ao longe…ainda ao fim do mar…enquanto esfrego os olhos … nevoeiro baixo e um frio que me entorpece. Tu, só tu, estarás para sempre comigo. O mar é um capelo de andanças. Eu sou tão pouco pecador. E tu, só tu, sacas das tuas armas e envolves-me suavemente. Se por um momento apenas pudéssemos conhecer o sabor das castanhas dessa Lisboa antiga. Se por um instante apenas…lá ao longe…no fim do mar. Para quem terei eu nascido?
Lá ao longe entre a neblina aquela és tu. Aquela canhoeira de projécteis vazios e infundados. A cabeleira tão preta da enfermeira que me tirou sangue hoje de manhã. Que frio dormia do meu lado da cama. Que buraco de inconstância. Que sede de poder. E que sorriso o teu. Se por um momento só outros pudessem ver de que forma tu fumas o teu cigarro. E como curtes as tuas zangas.
Lá ao longe entre a neblina de trovoada, aquela és tu. Minha inveja. A minha caudalosa torrente, a minha infame lâmina, a minha cantiga tão piedosa. Não há ninguém maior que tu. Como, com tempo de chuva te podes despir e dançar, te podes esconder e adormecer, como, em tempo de sol és capaz de voar, vaga e etérea sobre os campos de trigo e as florestas de carvalhos. Como, em tempo sem tempo és capaz de fumar. Como, em tempo de inconstância, poderás caminhar navegando, poderás ser alva errante, conseguirás ser tornado e redemoinho.
Lá longe…ainda ao fim do mar…ainda e sempre a fronteira do mar, tu sem seres tu, tu nunca aqui, tu sempre numa eternidade maior que a minha. Pois fica aqui escrito entre nós…não te deixarei morrer…farei voar esses teus cabelos de fogo…impregnarei este papel do teu cheiro…de cada vez que te irritas, quando pedes um café curto…que fronteira intransponível, que vida melodiosa, que vaga de calor quando colas tua cara à minha.
Aqui ao perto nós os dois na mesma sala sentados no mesmo sofá olhando os mesmos avisos partilhando os mesmos momentos. Enquanto fada encantada…tudo o que fica por dizer… o céu azul e a fronteira da terra. Uma Terra com o teu nome. Um lugar do teu feitio. Só que te não conheço. Esse lugar do demónio. E eu habito em todos os lugares. Esqueci-me da terra com o teu nome. Regá-la-ei. Arregalar-me-ei!
Aqui ao perto o mesmo livro aberto. A mesma folha a mesmíssima palavra. Aqui tão perto a palavra e o encanto. A beleza lírica que és tu. Que sempre foste tu. Aqui sentada ao meu lado a poesia. Nas tuas pernas de mulher. Pousada nas tuas coxas de saudade. Olhamos o mesmo livro aberto. Ouvimos a mesma melodia feita de intriga. Iguais. Que buraco de serenidade. Que cruel narrativa. Que sucessão de opressões.
Aqui ao perto a mesma lápide tumular. A mesma macieira. Dois ou três campos de trigo. Desavindos presos a um quadro minimalista. Encarcerados, um no outro, esperando o fogo lânguido da lareira. Engalfinhados e endemoninhados. Haverá quem mais me irrite? Haverá quem mais me contente? Poderá algum dia ser de outra forma? Até quando as questões? Não te deixarei partir nunca. Por isso lá longe não existe. Só o mar. Só a neblina onde és sereia. Só a terra onde és chuva. Só tu. Só tu. Arregalar-me-ei!


Nuno Monteiro

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O renascer do medo


No reino renasceu o medo. Ou rejubila. Não estou certo que dele alguma vez se tenha ausentado. Repitamo-lo para que não haja desentendimentos, vivemos tempos de medo. Como se em cada esquina se postasse algum caminheiro que na realidade não está lá a caminhar. Não está a caminhar. Arregala muito os olhos e logo após vai contar pois dessa forma julga que assegura os míseros tostões as míseras migalhas com que come repastado o camarão que falta à minha mesa. Mas eu que me não importo. Nem com o camarão nem com o caminheiro. Que vivam imersos em nébula e que para mim sejam inconcebíveis. Ou ainda invisíveis. É, assim mesmo a todos os que ainda queiram ler. Porque esse é outro dos grandes problemas dos nossos tempos. Por medo, ou por descrença, quiçá as duas, também cessou a leitura. Já da escrita eu nem falo. Para quê se eu escrevo cada vez mais para mim mesmo. Ler-me-ão os meus alunos? Isso queria eu. Mas nessa já eu não caio. Uma quase descrença como uma mão que toca o desperdício ou um olhar que roça o infinito. Ou então falamos dialectos distantes que se não tocam. Ou que muito tenuemente como se fosse código de luz lá longe na penumbra do horizonte de um mar encapelado. E então entre nós todos o mar encapelado que impede a comunicação. O mau tempo do canal alargado a todos e cada um de nós. E todos e cada um abandonado ao seu canto. Um inferno em vida. Estamos cada vez mais próximos da realidade sombria dos menos afortunados. Se não há falta de dinheiro então faltam afectos, se sobram os afectos então fará falta o dinheiro. Ou então também encontro, debaixo da ponte e nas grandes urbes tantos sem dinheiro nem afectos. Os que passam fome. Todos os séculos após, ainda os que passam fome. E entretanto renasceu o medo. O medo de falar e de pugnar pelos direitos. Pudera. Numa sociedade onde a justiça emperrou, onde se graceja com o ano do término dos processos, num país onde os empregos se fecham a cada dia, num lugar onde a saúde vive gorda para os ricos. Num país onde os hotéis estão cheios de afamados de colarinho. Num país sem bandeira. Num país sem vergonha. Num país sem saudade. Neste lugar despido de homens. Onde renasceu o medo.
E que irei eu fazer doravante? Quando todos se calam e todos se tornam autistas. Quando se calam as canções e emudecem as vozes de protesto. Quando se instauram os comportamentos daninhos como se fossem a normalidade dos nossos dias. Viverei uma realidade de abnegação e de negação. Deixarei eu de sonhar? E a ter que sonhar, sonharei com quê? Sonharei com justiça onde? Sim, onde abunda essa tão preciosa? Para onde poderei olhar quando quiser olhar algo de verdade, alguma entidade verdadeira que me não queira enganar? Quem me quererá fazer companhia. Seremos ainda capazes? Ou morreremos todos autistas de olhos fitos no nosso próprio umbigo!
Alguns quererão sempre dizer que faz falta tempo. E a verdade é que falta. Se faz falta a alguns outros haverá que o tenham de borla. E que o tenham em doses duplas e triplas. E desses nunca rezará a história porque não sabem o que fazer com tanto tempo. E dos outros também não porque são formiguinhas que trabalham como escravos. Como escravos que o são cada vez mais. Eu, afirmo que o que mais falta é coragem. Coragem de união, coragem de fraternidade e de simplicidade. Coragem de homem. Vão fazendo falta as discussões fraternas e os entendimentos tão necessários. Porque os que nos querem enquanto escravos apostam tudo no nosso comportamento suicida e na nossa tendência para o malogro e a decepção. A decepção do meu irmão que me atraiçoou, a decepção do meu amigo que me denunciou. Porque essa decepção nos embebe em sono que nos fustiga devagar até que vergastados nos vamos transformando noutros novos milhões de espoliados e de defraudados. E o caminho que fecha e que se torna tão estreito e escorregadio.
Nuno Monteiro

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ode ao meu eu servil


Sete horas da manhã e um despertador máquina inútil que me encandeia acordado estou há cerca de quatro horas aos rebolões cama adentro como se ela transposição minha estivesse condenada a uma existência servil. Sem acentuação e sem preceitos para que não perca pensamento algum. Como todos ou tantos outros milhões servis sem cheiro nem sexo. Suores frios e choros incontroláveis sempre que mais uma hora passa e minha saúde não serena muito menos que dizer de meu intelecto açaimado por todos os problemas. Ou então nada, nenhum e só as olheiras, horríveis que me vêm ao espelho e se cravam como adagas entre eu e as minhas lágrimas. Manhã tão de manhã de um dia frio e seco destes de fraca neblina, soalheiro sol da parte da tarde e o meu Marão lá longe, esquecido, quieto, sossegado, abençoado. Filho de um deus menor. Lições de infância como água para a boca. Hoje tal como será sempre, a infâmia de bramir, a infância de lutar, a infantilidade de sonhar. Hoje, como para sempre será, como um abraço fraterno, como mais um laivo de sal, um banho na estrela, um sorriso fugidio, um instante apenas. A vida. A nossa vida. O meu novo texto. Que bem me sabe. Quão sereno e concreto aqui sentado, destas teclas abusando e pássaro de mim mesmo, abismo de saudade, os meus tempos antigos, os meus livros amados, esta minha escrita em círculos. Em quantos outros textos eu já escrevi isto? Não serei eu capaz de escrever sobre algo mais, que espécie de centralidade será esta que me amarra ao poço. Que desapego este que me faz parecer distante, que sentido de comiseração, que desamor próprio, que alegria em escrever, que povoa em mim tudo quanto não tenho, tudo quanto é medo, todos os meus futuros aqui reunidos. Quantas estradas bifurcam daqui deste meu espaço de paupérrimo elixir.
Hoje acordei tão cedo que em quatro horas repassei toda a minha vida e graças a deus por esta máquina tão prodigiosa que adivinha o futuro e trespassa o passado por entre um banho de lágrimas quentes e doces das minhas tantas outras vidas que poderiam ter sido. Pois é. A minha vida é este momento e como não sou herói, nem sei por que sofro, nem sei que estrada tomar, luzes passam velozes por mim como se eu perdido na escuridão do poço. Não passo de um pequenino palhaço que imensamente feliz fica quando consegue arrancar um sorriso às faces dos outros, os outros iguais, os meus camaradas, os outros tantos eu, vidas sombrias e cinzentas inglórias outros anti-heróis, outros brâmanes incandescentes, trespassados por olheiras, olheiras dos tormentos, lamentos como insónias, insónias de chumbo agarradas aos pequenos nadas, pequenos nadas como os palhaços – da minha instrução primária recordo-me de uma vez me terem dito que os palhaços são os heróis maiores desta que é a nossa vida. Porquê? porque são os que fazem rir e haverá algo mais importante que conseguir fazer rir, haverá presente maior que um sorriso profundo e vincado. Porque a vida deveria ser para rir, a vida deveria ser para a consagração, todos nós deveríamos nascer para ser felizes. que espécie de ente então nos regula para o sacrifício e para as noites mal dormidas?
Se cheguei a conclusão alguma. Invariavelmente não. O mais que posso é sentar e escrever. E recordar meus pais que me deram a infância. Ou olhar lá fora o céu azul e o Marão ao fundo do pano. Como gigante valente que dá comigo a pensar se algum homem tão forte assim como ele se poderá afirmar. Quem se dá ao trabalho de ser sagrado como as rochas desse monstro que é a serra lá de cima das nuvens. Quem quererá ser assim tão rude. Recrio uma vez mais a minha infância e os momentos de felicidade. E enquanto isso escrevo porque me faz sentir bem. escrevo porque a escrita me ilumina, me inunda e ela é para mim como algum láudano que me atordoa e me desperta. Ela é para mim a fortaleza inexpugnável. É o reino da justiça e da compreensão, é terreno fértil em sorrisos e heróis, é encontros e amores, serenidade de justiça, ausência de pobreza e cordialidade no trato. Um rebuçado a cada novo menino. E uma foto à estampada de alegria. A cara. O sorriso. O palhaço. O belo e sublime. Para que o humanitarismo não seja um credo inútil.
E agora que já disse tudo agora que já escrevi tudo quanto sabia estico um pouquinho mais este ofício, na ânsia de mais alguns minutos de prazer, na ânsia DE UM POUCO MAIS DE AZUL, NA SOFREGUIDÃO DE ALGUM OXIGÉNIO. DE SEGUIDA O FUNDO DO POÇO, O FUNDO DA VIDA E DE NOVO ESSA MALDITA QUE PERVERTE E ENGANA QUE ME OBRIGA A CALAR, QUE REPETE CONSTANTEMENTE QUE NÃO SOU POETA, QUE NÃO SOU POETA, QUE NÃO ÉS POETA, QUE NÃO ÉS POETA, não és poeta, não és poeta, não és poeta, como uma corrente infinda de cinzento e bafio.
Um último apontamento para berrar aos ventos que sou teimoso como uma mula, sou teimoso como uma mula, sou teimoso como uma mula e que tu não me vences, que tu não me vences, que tu não me vergas, que tu não me calas.

Nuno Monteiro

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Pablo



Tem automóvel, uísque, jornais,
Elegem-no juiz e deputado,
Condecoram-no, é ministro,
E é ouvido no Governo.
Ele sabe quem é subornável.
Ele sabe quem é subornado.
Ele lambe, incensa, condecora,
Adula, sorri, ameaça.
E assim se esvaziam pelos portos
As repúblicas exangues

José Cardoso Pires bramava “República dos corvos” pejada de clones cornetas.

Onde vive, perguntareis,
este vírus, este advogado,
este fermento dos dejectos,
este nojento piolho sanguíneo,
que engorda com o nosso sangue?



E morre glorioso, “o patriota”
Senador, o patrício eminente,
Condecorado pelo Papa,
ilustre, próspero, temido,
enquanto a trágica raça
dos nossos mortos, os que mergulharam
a mão no cobre, arranharam
a terra profunda e severa,
morrem humilhados e esquecidos
metidos à pressa
nos seus caixões fúnebres:
um nome e um número na cruz
que o vento sacode…

Pablo Neruda in Canto Geral do Chile

Encontro-me, igual a mim próprio e quase como sempre, à soleira da minha casa da minha “Isla Negra”
-quantas saudades tuas Neruda!
falando com ninguém ensandecido pela brisa de mar e acabrunhado com os laivos de vinho que partilho com as ondas que na sua suave rebentação me recordam a vida
-ou antes as voltas e reviravoltas da vida de nós todos
dos que morreram de pé, dos atraiçoados, dos íntegros e puros e então, na esteira desses desejados absorvo os ares e os odores deste oceano de azul
-tens os teus livros que te não deixam calar Neruda!
imóvel e absorto nos meus livros que são os meus heróis e de costas voltadas para o mundo, de olhos e todos os sentidos alerta mas na negação, alerta mas sempre negando, alerta para poder negar criticando, e alerta construindo, construindo dependências de mim e assim lutando sozinho, assim berrando ao vento e a plenos pulmões com ira e cólera,
e não me atreveria a invocar Neruda não fosse ele estar aqui comigo!
quão acolhedoras estas manhãs de nevoeiro, aqui à soleira da porta e entrelaçando a minha visão entre o mar e os livros, entre os livros e o grande oceano, entre os livros e a parte bela do mundo, este azul da cor dos pensamentos livres, ora da cor do céu ora ambiente fechado cinzento da palidez da tua camisa, mas sem violência, sem consternação, livre de angústia, sem mentira, sem alienação, sem terceiras leituras, num discurso directo, num discurso autêntico, num sôfrego pesar.
Encontro-me, igual a mim próprio e quase como sempre, à soleira da minha casa da minha “Isla Negra”
-sinto saudades tuas dos livros teus que me obrigaste a ler
E atrás de mim jaz inerte a minha vida vazia e os meus anos de vácuo, como se tivessem sido portas fechadas e mentes desfeitas, como se tivesse sido trabalho em vão, longe dos meus longe dos sonhos, silvo agudo vermelho do sangue dorido de chamada incessante e podres caminhos, desvarios e mentiras e alguns poucos sorrisos, tão poucos sorrisos autênticos que polvilham a humanidade de uma ténue linha de esperança mas logo os abutres logo esses ignóbeis que lhe estragam a face e a povoam de nuvens, a incomodam no seu sentir, a impedem de singrar e a obrigam a calar.
- é hoje como foi contigo Neruda
E o mundo avança como a rebentação aqui a meus pés, em pequeninos círculos de uma sucessão de iguais e os pobres são os mesmos, novos nomes para os mesmos caminhos, novas roupagens para as mesmas privações, novas armadilhas para as mesmas ditaduras e tal como então, uma humanidade à beira da perdição e tantos escravos que não sabem sequer que o são, tantos inocentes ostracizados, tantas mentes vazias, todos operários aterrorizados e toda a mesquinhez, todo o canibalismo num desejo de poder que não é senão derrota todo o sentir feito depender da condenação de milhões, o homem predador de si próprio.
-não desaparecerás porque o teu canto viverá para sempre.
Porque tu captaste num instante o sentido inglório da vida dos homens e soubeste sempre que a humanidade não existe, que a solidariedade não existe, que a compreensão e a ternura são miragens mas ainda assim foste tu que te referiste aos mais fracos e foste gigante nos teus caminhos clandestinos, nas tuas tiragens foragidas, foste leme de uma revolução, foste âncora de sentido.
São os poucos sorrisos da incompreensão diária, são os tantos solavancos da cegueira e do absolutismo, são os amuos da derrota nos olhos do iletrado, ou os instantes capitais de uma longínqua execução, mais uma, uma entre tantas, mais uma execução tão arbitrária, a humanidade fenestrada necrosada num suave lamento de uma guilhotina besuntada de sangue. Mais um louco morto. Outro cadáver recente mais um bando de abutres que singram em voo de auto contemplação e nós, nós no dia a dia das nossas pequeninas casas, nós no dia a dia das nossas pequeninas decepções, nós olhando em frente ante o vazio cinzento escuro das tempestades com trovões estilhaçados por milhões de pequenos nadas da incompreensão dos homens.
-não sei onde viste tu a compreensão dos homens Pablo!
-não sei onde tu viste a compreensão dos homens!
Do sítio onde estou, que não é a tua “isla” embora guarde o teu canto, sinto que desfilam os ecos do fim e a chegada da morte, sinto-o nas fortunas de poucos e nas acções dos novos loucos, sinto-o no viver frenético de uma movimentação de manada e no estado providência dilacerado dos médicos que não tenho, na falta de tempo dos que não têm filhos, na falta de leite dos que já nasceram condenados, nas montanhas aldeias lá longe abandonadas e em todas as instituições que não nos poupam loucos mortos.
Almas mortas, espectros produtores e números estatísticas e egoísmo, números estatísticas e tratados, cimeiras e conferências e papéis, papéis e mais papéis, inválidos e inócuos porque deixaram o estado mais refém. Deixaram o estado mais refém e querem fazê-lo ainda mais refém. É a desconstrução da vida tijolo a tijolo, pedra a pedra. E então, então assim, se assim para sempre, para quando o fim do homem?
Até este mar azul imenso que tenho em minha frente. Até este oceano de antigas virtudes e até as fortalezas inexpugnáveis, até neste imenso azul paira a suspeita de corrupção. Dançam, em todos os palcos da vida, fortes e incansáveis, indestrutíveis os pecados capitais. Todos enfileirados como se do hino se tratasse. A nação infecta e doente, a nação esquartejada e em quarentena. E um outro Adamastor se levanta, um outro gigante se interpõe, uma nova Orão se congemina ventre da Peste adaga da dor. Camus e os doentes ?, o religioso e as dúvidas ?, o contrabando e as fortunas ?, a cada homem a sua culpa , cada um com seu caminho.
Mais um louco morto. Ébrio julgo impossível que um tubarão se aproxime da costa e regurgite a cabeça sorridente de uma pequena miúda. Mas olhai que não, olhai que não e um após o outro eles chegam penitentes e regurgitam cabeças como se pedissem que se lhes desse um funeral. O cúmulo do cinismo e a maior das fraquezas.

domingo, 5 de outubro de 2008

Republicanos


O5 de Outubro, dia da implantação e a hora é a hora da tarde, ainda na esteira das imagens das comemorações na praça do município. Quase cem anos após a queda da monarquia. Ainda com todos aqueles fatos na minha memória e com a noção tão quente quão inquietante de que todo o feriado é uma mentira e de que toda esta república de certa forma nunca foi, nunca se impôs, praça vazia, um punhado de soldados de chumbo e os engalanados do costume, os economistas, os habituados da política, as poltronas vermelhas e dois ou três fatos cinzentos gala impura das nossas queridíssimas forças armadas.
Sua excelência o presidente boca seca e modos hirtos à vontade soletrando lições de economia, planos de acção, o estado da educação, o estado cultural do país, a balança externa, a nossa desgraçada saúde e o centro de saúde de Figueira de Castelo Rodrigo sem médicos e pessoas dormindo à porta para assegurarem vez ou as histórias tão repetidas dos emigrantes escravizados nas romarias das vinhas do douro. Ou do nosso D’oiro. Doiro dos socalcos da mão do homem da classificação d’Unesco e de todo o suor das vindimas dos homens. Contraste tão nítido e notório com as poltronas e os engalanados naquela gravata vermelha naquela praça vazia do descrédito com que os discursos dos políticos são recebidos. O paradoxo de toda a pobreza encapotada.
Sua excelência o presidente goza dos directos e logo na esteira o primeiro ministro com pompa arrostando sobre a sintonia entre a acção do seu governo e as preocupações transparecidas do discurso – palavras, palavras vãs, lugares comuns, aparência, crise, desculpem mas eu recuso a acreditar.
Recuso acreditar porque conheço o estado real da educação desta ditosa e garbosa república, sei como funciona a justiça e já vi doentes caírem das macas nos corredores das urgências dos nossos hospitais. Sinto e preocupa-me a descrença que cresce e cresce e inunda todas as falanges da sociedade, ouço estupefacto bramir obras megalómanas e milionárias sem se acautelarem os direitos mais básicos dos nossos cidadãos. A não ser que não sejamos todos cidadãos de primeira. E aí sim. Aos alinhados e apadrinhados a república e aos restantes – tantos dois ou três presentes – pobre Magalhães que nem após séculos te deixam em paz, as noites ao relento na busca de uma consulta num centro de saúde onde trabalham quatro médicos. E são tantos e tantos os sintomas de enfermidade que me recuso a acreditar. Recuso a acreditar num país que se não importa com centenas de milhares de recém-licenciados e que perdeu o sentido do fundamental enquanto canta vitórias e vilórias de um sentido de esquizofrenia, enquanto alça a bandeira e brame no deserto por um oásis que todos sabem nunca chegará.
E então proponho que enquanto houver um cidadão desempregado se suspendam os feriados que sejam de exultação ou de consagração de uma classe política ostentatória. E que se comece pelo do cinco de Outubro. Porque a ostentação quando convive lado a lado com a miséria é o maior ultraje. Podem vestir e sentar seda e poltronas mas as nódoas coexistem, são maiores que vós, são a prova do vosso descrédito e a certeza de uma praça vazia. Vazia de gente, vazia de povo, vazia de sentido. O vosso discurso carece de significado até porque ninguém lhe deu guarida.
Nuno Monteiro

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

discurso a uma plateia de iguais

A figura maior, a alusão prevalecente, a espiral de realidade, o centro nevrálgico de todo o nosso descontentamento – não!, não é o deserto, tão pouco a neve ou o desconforto físico, esses cadernos do subterrâneo, esses antigos mestres, esses gárgulas reflectidos, esses olhos ameaçadores penetrantes de medo somos nós, são os nossos, subjugados, sou eu ao centro do poço, erva daninha espezinhada, peixe miúdo como todos vós, entes irmãos cozinhados em lume brando, nós, eu e o poço. A realidade crua e todas as nuvens ameaçadoras que se imiscuem entre eu e tu, os arrepios de toda uma imensa culpa, corta e desilude, castra e firma invejas, arregaça as mangas num trabalho inglório profusão de mentes que esbracejam sem sentido, anémicos pecadores, anarcas perdedores, saudosos itinerantes desta vida que é a de nós todos. E agora, com a vossa licença, sentado que estou à proa deste meu momento de toda a glória, na esteira de um livro, obra-prima que é a minha coroada de toda a imperfeição, permitam-me que me cale e que passe a falar-vos por intermédio dos livros de outros, dos meus heróis, dos meus eternos sentidos, dos meus pastores.
Calo-me continuando a falar e nem por isso deixo de ser eu, sou eu por intermédio de tantos outros meus faróis, sou eu por meio de palavras rascunhadas que dão frases com sentido, ferem e acabrunham, coro de inveja, impelem-me a outras trajectórias, corrigem-me, desformatam-me e consolam-me.
Humildemente peço-vos que me ouçam. Depois me direis se tenho ou não razão. E entretanto olharei de relance para os vossos olhos na esperança de que me queiram transmitir as inúmeras centelhas de que preciso para vos fazer reflectir.

“O homem na camioneta cuspiu e fitou-o de olhos semicerrados. Qual é a tua ideia, Lester, dar-me um tiro? Não fui eu quem te tirou a herdade. Foi o condado. A mim só me contrataram como leiloeiro.

O tipo é doido, CB.
CB disse: Se me queres dar um tiro, Lester, podes dar-mo aqui onde estou. Não saio daqui por tua causa.”

Cormac McCarthy, child of God, 1973. Magnífica antevisão dos nossos infelizes tempos modernos onde tantos e tantos espoliados esbracejam sem sentido. Este trecho traz-me à lembrança todos os milhares que entregam as casas ao banco para enfim caírem num limbo desprovido de senso e sentido. Quanta pena tem CB? Não tem nenhuma. A ele só o contrataram como leiloeiro. Porém participa da fraude. Não se recusou a tomar parte da destruição. Se não fosse CB seria outro igualzinho a ele. E este é o maior dos dramas. Há sempre um facínora na disposição de fazer o trabalho sujo. Com deus do seu lado. Pode deitar e dormir descansado e um pouco mais rico porque sente deus do seu lado.

“Há muito tempo que tenho vergonha, uma vergonha mortal, de ter sido, ainda que de longe, ainda que de boa fé, por minha vez um assassino. Com o tempo, compreendi apenas que até os que eram melhor que outros não podiam impedir-se, hoje, de matar ou de deixar matar, pois estava na lógica em que eles viviam e que não se podia fazer um gesto neste mundo sem se correr o risco de se fazer morrer. Sim, continuei a ter vergonha, aprendi isso – que estávamos todos na peste – e perdi a paz.”

A peste, Albert Camus. Esta alegoria poderosíssima de uma cidade em quarentena assolada por uma doença mortal epidémica – uma peste, é de uma desinquietação ensurdecedora à medida que nos vai mostrando de fraquezas somos feitos. A peste confunde-se com o homem. A espécie comporta-se tão miseravelmente mal. Excepção feita a um punhado de tão poucos pobres palhaços teimosos que sofrem de um humanitarismo que invariavelmente os ensombra e os sufraga. Ainda hoje não tenho noção do quanto será necessário para deixar de ser um pestiferado. É a consciência da peste que me inquieta. E o sentir de desalinho feito.

“Decidi então falar e agir claramente, para me pôr no bom caminho. Por consequência, digo que há flagelos e vítimas e nada mais. Se, dizendo isto, me torno eu próprio um flagelo, não é por minha vontade. Procuro ser um assassino inocente.”

Camus, de novo, na mesma obra. Como é que se foge desta sorte maldita de peste, pestiferado, assassino? Descortinarei aqui a própria vontade de criação deste espaço? Dúvidas, muitas, imensas…

“-Informo que vocês estão loucos – apeteceu-me dizer em voz alta. – Informo que tudo isto, esta reunião, este asilo, esta merda científica são a prova acabada da vossa estupidez, da vossa inutilidade, da vossa loucura, informo que estou a enlouquecer com vocês e quero que me levem daqui antes que me torne numa camisa de dormir…”
António Lobo Antunes, in Conhecimento do inferno, data da primeira edição 1980.

Vinte e oito anos volvidos a consagração da derrota, a aposição da desgraça e o nosso rectangulozinho mergulhado num sentido de esquizofrenia que tira a razão a todos e que nos marca desgarradamente como carrascos. O homem é o inferno de si próprio. O inferno é em vida, aqui, ao redor de nós, nas palavras e nos actos de todos os outros…

“- a colega passe isso a limpo o mais depressa possível – decidiu solenemente a perna -, a fim de ser apresentado às autoridades competentes…”
Do conhecimento do inferno

O caminho que o país leva é o oposto do que deveria ser. Secura no trato, todos os peixes miúdos escravizados de trabalho, os nossos filhos esquecidos a um canto, lágrimas, convulsões, a antítese da felicidade. Os que berram que não são açaimados e metidos em camisas de força. Deitados despejados como pobres desgraçados bem fundo lá tão escuro ao fundo do lodo ao fundo do poço.

Nuno Monteiro


Nódoas

São 6h da madrugada. Toca o despertador. Levanta-se. Toma banho. Trata do pequeno-almoço. Chama o miúdo. Põe-lhe a roupa que escolheu na noite anterior e que ele tem de vestir (ou devia) em cima da cama. Acaba de se arranjar. Chama o miúdo que continua, ainda, na cama. Olha as horas que passam a correr. Ralha com o miúdo que só agora sai do ninho e se encaminha, irritantemente lento, para a casa-de-banho. Sorve de um trago o leite já frio. Volta ao quarto do miúdo, que vestiu as calças que já estavam para lavar e a camisola do dia anterior, paciência, ele lá sabe. E as horas correm. Enfia-lhe o casaco enquanto ele come, sem vontade, os cereais já moles. Sai de casa. Metem-se no carro. Atravessa a cidade em pânico porque já são quase horas de estar no emprego, mas deixa o miúdo mesmo à porta da escola porque está frio e pode adoecer. Despede-se com um “Até logo.”. E corre de novo até chegar, finalmente, ao local de trabalho.
O miúdo, na escola, atura impaciente e aborrecido um sem número de professores e disciplinas que lhe dizem muito pouco (ou nada). Desenha uns rabiscos na margem do caderno de Matemática. Combina, cúmplice, um almoço no Mac. Decide horas e pontos de encontro. Aponta o número do Zé numa folha amarrotada. Disfarça quando o professor pede para alguém ir ao quadro resolver a equação. Procura na mochila o CD que o Luís lhe pediu. Toca para a saída. Vai para o intervalo. Joga à bola. Troca Tazos. Conversa sobre o filme que esteve a ver, no dia anterior, até às quinhentas. Masca uma pastilha. Dá um empurrão ao colega. Entrega o CD ao Luís. Toca para a entrada. Sobe, molengão, as escadas. Entra na sala. Português – Que seca!!. A Rita tá muita gira! Manda-lhe um bilhete com um piropo de mau-gosto, que passa de mão-em-mão. Espera pela resposta que chega num insulto. O professor explica qualquer coisa sobre uma tal de Conjugação Pronominal, ou lá o que é. Cochicha umas coisas com o colega do lado. Toca para a saída. Acaba a aula – a última do dia. Porreiro!
Entra na sala. Poisa a pasta. Tira lá de dentro um sem número de livros e papéis, qual mágico da cartola. Abre o livro de ponto. Escreve o número da lição e a data no quadro. Espera, à porta, os alunos que teimam em tardar. Recebe-os com o sorriso de sempre e um bom-dia do fundo do coração. Olha-os, enquanto ocupam os seus lugares com a eterna esperança de conseguir abrir-lhes o horizonte e ajudá-los a ser, em cada aula. Escreve o sumário da aula que vai oferecer-lhes. Faz a síntese da aula anterior. Introduz o assunto da aula do dia. Explica. Volta a explicar. Decompõe. Troca por miúdos até já não ter mais moedas. Exemplifica. Exercita. Tira dúvidas. Repete-se. Repetem-no. Ignoram. Ignoram-no. Irrita-se. Tenta compreender. Ajuda. Dá apoio. Ensina (ou tenta ensinar): a sentar-se, a comportar-se, a agir, a aprender, a apreender, a raciocinar, a seleccionar, a resumir, a sintetizar, a aplicar, a ser... Grava, no livro de ponto, os pontos tratados ao longo de 90 minutos. Despede-se com o mesmo sorriso de sempre e um bom dia do fundo do coração. Sai da sala. Encaminha-se para a sala de professores. Senta-se. À volta da mesa discutem-se estratégias, métodos, conteúdos, dificuldades diagnosticadas, casos pontuais de alunos que se atrasam, que não vêm, que vêm, mas que não estão, da ausência de pré-requisitos, dos pré-requisitos de alunos ausentes, de pais mais ausentes ainda...
São cinco horas. Arruma a secretária. Sai do emprego. Exaspera-se no trânsito. Atravessa a cidade. Chega à porta da escola onde não tem lugar para estacionar. Coitado do Pedro, vai apanhar frio. Chega o miúdo. Entra no carro. Como correu o dia? Bem. Vai ao super-mercado. Compra umas coisas que faltam e um CD do Robbie Williams ao miúdo que nunca mais se cala. Chegam a casa. Adianta o jantar. Põe roupa a lavar. Lava a loiça do pequeno-almoço. Passa umas coisitas a ferro. Chama-os para jantar. Jantam.
Deixa a mochila à entrada da porta. Pendura o blusão na cadeira da sala. Atira as sapatilhas para ao pé da secretária. Liga a televisão. Estica-se na cama. Ouve o CD novo. Ò mãe! Traz-me um pão com fiambre! Já vou... Chega o pão. Não tens nada da escola para fazer? Já faço. Come o pão. Liga o computador e aterra num “Chat” qualquer onde tagarela com um tipo de Ourém. Vasculha, na mochila, o número do Zé. Marca um jogo para o Sábado seguinte. Desfolha a revista de motas à procura da próxima prenda de aniversário. A mãe chama para jantar. Senta-se à mesa. Começa a comer. Passa-me a salada. Serve-o. Não compraste Coca Cola. É sempre a mesma coisa. O jogo Porto - Sporting começa às nove. Termina a correr. Sai da mesa a meio da refeição. O jogo vai começar. Entra no quarto. Estica-se na cama. Vibra. Salta. Golooo!!! Rói as unhas. Intervalo. Ó mãe! Traz-me uma maçã! Já vou... Trinca a maçã. Já fizeste os trabalhos da escola? Já vou... Enerva-se. O árbitro é parvo, ou faz-se?!!!. 3-0 para o Porto. É sempre a mesma coisa!... Amanhã tem teste a Ciências. Tem sono. Que se lixe! Tive positiva no outro... – deitou-se às tantas no dia anterior. Deita-se. Dorme.
Levanta a mesa. Arruma a cozinha. Vê 20 minutos da novela. Discute a conta da água com o marido. Vai ao quarto do miúdo. Já dorme. Tapa-o. Arruma a roupa que ficou espalhada pelo quarto. Apaga o computador, a televisão e a luz. Encosta a porta. Veste o pijama. Põe o relógio a despertar. Deita-se. Esqueceu-se de tirar a roupa da máquina. Levanta-se. Tira a roupa da máquina. Mais um rol para passar a ferro no fim-de-semana. Volta a deitar-se. O Pedro não vai nada bem na escola. Não entendo. Ele tem tudo o que precisa para ser um bom aluno. Não deixamos que lhe falte nada. Deixa lá o garoto. Eu, com a idade dele, era igual... E se reprova? Ainda é novo. Deixa-o gozar a vida... Só reprovou uma vez... Tu lá sabes... Amanhã tens tempo de ir ao Banco? Só se for à hora de almoço. Pode ser. Deixo-te os papéis no móvel da entrada...
Sai da escola às 19h. Vai tirar fotocópias de umas fichas informativas. Chega a casa. Liga o computador. Tem de terminar a acta do Conselho de Turma. Escolhe, entre muitos, um texto para o teste. Elabora questões. Faz cotações e correcções, Planos Curriculares de Turma, Planificações adequadas e Específicas. Repensa estratégias. Analisa casos concretos de alunos abstractos. Planeia aulas. Calendariza apoios e testes. Come qualquer coisa. E o Pedro? Não sei o que se passa com o miúdo... Ele até tem capacidades... Não se interessa. Não estuda. Não liga nada. Hoje não esteve atento. Fartou-se de conversar com o colega, de passar bilhetes à Rita... Tem tudo o que quer sem fazer esforço nenhum... Que objectivos há-de ter? Tenho de ter uma conversa com ele, amanhã. Se calhar, é melhor dar-lhe apoio. Pode ser que resulte... Corrige doze testes de uma turma. Está cansado. Exausto. Desliga o computador. Arruma a pasta. Deita-se. Dá voltas à cama. À pedagogia. À vocação. À estratégia. Ao desempenho. Ao desempenho dos 98 alunos que tem. Ao aproveitamento do Zé, do Rui, da Joana, da Isabel... Ao comportamento do Pedro, do João, do Carlos, da Sónia... Adormece.

São 6h da madrugada. Toca o despertador. Levanta-se.
São 6h da madrugada. Toca o despertador. Levanta-se
São 8h da manhã. A mãe já chamou três vezes. Vira-se para o lado. Adormece de novo...

E é, infelizmente, assim. Muitos meninos são entregues à escola, qual casaco usado à lavandaria: cheio de vincos, dobras, quebras, nódoas, pó... E a escola que sacuda, areje, limpe, lave, tire manchas mais ou menos entranhadas, dê um pontinho onde for preciso, passe a ferro, engome e no-lo entregue novinho em folha, como acabado de vir da loja, sem odores nem vícios, sem mácula ou vinco que nos deixe ficar mal... Mas a lavandaria não faz milagres, se votamos ao esquecimento os casacos, no armário, uma estação inteirinha... Depois, há sempre nódoas que teimam em permanecer...

Dina Cruz

Olhai puro povo e benditos escarninhos

Olhai puro povo e benditos escarninhos, atentai no que vos diz o vosso timoneiro e escutai as verdades do sufragado que se desmancha em votos daninhos, botai para aqui os olhos cegos e as orelhas surdas e parai de esguedelhar porque, povo duro e competente, povo áspero e tão benfazejo, povo que lavas no rio, povo que tanto amamentas e que tanto apertas o cinto…

Assim começavam todos os editais, assim agia o excelentíssimo quando queria aprontar alguma e assim cauteloso como quem chama por eles, como quem se aninha num pranto imenso e como quem se oferece para ser coçado, como gato com cio que se aninha e ronrona, como assaz corajoso coração de mel que se enternece e colapsa de cada vez que as más notícias lhe chegam.

Bem sei das vossas dificuldades e bem sei que estais “bué” tesos. Bem sei que o reino é pobre e que as vossas necessidades são muitas. Pobres pois. Pobres vós. Eu sou rico e bem rico. Tenho um pote e um penico. E no penico caibo lá inteiro. Mas as más notícias chegam sempre e então serve este edital para contactar convosco…

Olhai…escorrem-lhe as lágrimas pela cara fora e é um poço de pranto enquanto se contorce flatulento…olhai os lírios do campo…era sempre assim a verve literária entrecurtada com o sentir campesino que o deixavam melancólico…olhai povo…por vezes deixava-se enganar e dali saíam as verdades…não vos posso enganar mais a vossa vida é um excerto de pouca saúde e eu nada sei que vos possa ajudar… e vai daí enternecesse e então anuncia:

Esta madrugada os meus esbirros encetaram a meu mando um acordo que julgo muito vos satisfará…a respeito da falta de comida desde que a mim não me falte mas avante…a respeito da falta de hidratos nada posso pois é o vosso solo só pedras e sois calões para as retirar do sítio; podereis andar de carro, podereis continuar nas vossas voltinhas dos tristes como condenados que sois e pelo menos disso não vos privarei. De resto é como desde há muito é sabido…pouca léria e muito courato, pouca sorte e carros eléctricos. Prometo-vos esses milagres para daqui a três anos e assim já podereis carpir sem petróleo. De resto transformai os carrinhos em vagões, em camionetas, em ceifeiras e em tractores. Para isso tendes génio. Dito desta maneira resta fazê-lo cumprir a contar da data de hoje a três anos. Até lá como puderdes já que a fome é madrasta.
Terreiro, 10 de Julho de 2008

E o povo de orelhas à escuta, o povo às dornas e aquele fadário porque o imperador falara. O povo feito povo de uma afectação aos mandos e desmandos, o povo irradiado por aquela luminária, o povo enquanto povo travando insígnias e na posição que sempre lhe competiu e que é a da obediência cega e completa. Como ele se mostrara amigo e compadecido! Como ele se mostrava afectado! Como era ele magnânimo! E quando se julgavam os tempos perdidos, quando lhes restava aparentemente mais nada! Carros eléctricos! Ora essa. Fora mais fácil a solução! Pudera!, com um quão ilustre timoneiro o que se não poderia fazer?.

Corto à navalhada o primeiro que se atrever a afirmar que este não é nosso amigo! Corto-o e sequer o enterro!

E os homens dali foram para as arrecadações e pegaram nas folhas de papel e nos lápis de carpintaria para tratarem dos planos de transformação dos carros ainda não chegados em camionetas em tractores em ceifeiras. Sempre apagava a fome dos Invernos sucessivos e a indigestão das pedras.

E do lado do imperador, do lado do timoneiro, de novo posto em silêncio e no repasto habitual, de pança alçada e arrotando maravilhosamente porque agora sentia-se convencido, agora estaria protegido. Quem tem medo do lobo mau ?, quem tem medo do lobo mau?

Nuno Monteiro
“ A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”

António Lobo Antunes

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