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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

As minhas saudades



Ontem visitei o meu antigo auditório. O local onde há tanto tempo eu não entrava. O local parado no tempo como se estivesse à minha espera. Parado etéreo dir-se-ia à minha espera. Como se alguém por mim esperasse. Um auditório. Um local onde entrei para tantas aulas com tantos professores. Ontem quando lá entrei foi como se estremecesse. Foi como se submergisse. Embargou-se-me a visão e toldaram-se-me os sentidos. Senti-me transportado para os meus dezoito anos recordando tudo quanto lá tinha vivido. Todos os bons momentos. Outros maus também. Senti-me como se toda a visão desta que é a nossa vida passasse diante de mim num frémito de paixão. E então lá estava o meu professor. Lá estavam os meus companheiros. Os meus camaradas. Os meus camaradas que se evaporaram na voragem desta vida. Para vós este texto. Para vós esta mensagem. Para vós estive eu ontem no auditório. Parecia que poderia respirar por vós. Parecia que conseguia ver pelos olhos que são os vossos. E subia e descia a escadaria arfando de saudade e de dor. Porque a minha saudade é feita de dor. Porque todos desapareceram. Porque vocês desapareceram. Ficaram apenas as paredes cruas e descarnadas do auditório. Ficaram as recordações. O que seria do homem sem recordações? A certa altura não consegui reprimir um soluço. Não consegui deglutir tanta emoção e então sentei e deitei a cabeça entre as mãos. E ouvi. E então em surdina sorria do colega que olhava o professor sem que o percebesse. Sorri ao combinar de novo os bares após os exames. Sorri ainda mais ao professar de novo todas aquelas nossas noites. Sorri do que tenho cá dentro. Sorri ao voltar atrás no tempo. Quão bom é voltar atrás no tempo.
Cheguei ao auditório sem vontade própria. Fui para lá levado. E quanto agradeço! Como ficarei agradecido a quem me lá levou. Como estou agradecido a quem lá me levou. Ao meu antigo auditório. Ao meu antigo ambiente de penumbra onde com dezanove anos todos sonhavam uma vida em grande. Recambolesca. O império em vida. A mão que tudo abarca. O ego gigante que não tem fronteiras. O império não conhecia limites então. Eu, com vinte anos.
Depois dei por mim no lugar dos professores mirando as carteiras vazias. Carteiras vazias mas para mim fervilhando de gente. Um barulho em surdina percorria todo aquele espaço. As vozes que eu tenho cá dentro. Tantas. Tão ruidosas. E então de mim para mim. Eu somente. E para mim ouvi a Patrícia, o Gil, o Marco, o Filipe, a Sandra, o Joe, a Catarina. Tantas vozes de todos os nomes que deixaram de falar comigo. Todos os nomes de todos os meus colegas. Todos os que a vida separou. Todos os que a voragem diária que nos consome terá incendiado. Não sei se os tornarei a ver. Escreverei até os reencontrar. É isso. Escreverei até que um deles leia e procure os outros. Escreverei sem parar até os encontrar de novo. E tornarei a escrever até que a escrita e as palavras sejam maiores que eu. Até que o auditório de novo os chame. Até que todos sejam convocados. E só então descansarei. Então, só então, simularemos um exame, tremeremos dos pés à cabeça, soltaremos brados ébrios tal qual antigamente e combinaremos uma nova noite, uma destas noites como se das nossas antigas noites se tratasse. E percorrê-la-emos ufanando poesia. Afinal de contas que é a nossa vida senão poesia. E reencontro. E música. As músicas que então ouvíamos. Não acredito em mais senão no que aqui deixei escrito.

Nuno Monteiro

sábado, 1 de novembro de 2008

Tantos estarão errados? - Nuno Monteiro

Poderão tantos estar errados? Arcará a classe com todos os desmandos que o país se lembrar de lhes pedir? Nunca em tão pouco tempo se fez tanto para atirar tantos ao poço! E não pode ser de ânimo leve que se mexe com o coração e a alma de uma sociedade. Tão pouco com leviandade. Ou com o sentido de desgraça iminente. Nunca em tão pouco tempo se precipitaram tantos para a reforma. Como hei-de eu chamar a um país que não dá oportunidade aos jovens e ao mesmo tempo prescinde dos seus mais experimentados? Ou que abandona os seus velhos? Como hei-de eu tratar dum país que coloca por atacado consoante as cores partidárias e de acordo com o grau de parentesco ou meramente consoante a cunha do pedido e da bajulação?
Que hei-de eu dizer de um país que desbarata os seus valores sagrados ao afastar quadros e quadros das escolas para se contabilizarem uns dinheiros a mais e que joga enfaticamente o dinheiro dos contribuintes na roleta em que as bolsas mundiais se tornaram? Que remédio haverá para uma pátria onde se não sancionam os malabaristas ou onde se não fomenta a educação? Despida de justiça e em vias de desbaratar todo um sistema de ensino. Ou onde se tratam as pessoas como meros números contabilísticos.
Algo correrá bastante mal para que tantos tenham cara feia, tantos se sintam insatisfeitos, tantos peçam reformas adiantadas perdendo dinheiro porque não aguentam a subversão de valores. E algo correrá ainda pior se se não reinventar este ciclo que nos vai afundando cada vez mais num poço sem fundo, como numa espiral de loucura onde a cada dia se perde mais a razão.
Alguém fará o favor de me dizer por que razão eu pressinto olhares profundos e olheiras cavas nas faces ainda ontem esbeltas de quase todos os meus compatriotas! E que dizer dos nossos alunos. Até eles, pobres coitados se sentem embalados por uma mão quase invisível que terá tanto de dócil como de maléfico. Até eles sabem conscientes para que espécie de logro os estão a empurrar. Saberão os pais? Sim porque os pais, n o seu autismo – ou deverei dizer luta diária, os pais que deixaram de contactar com os filhos e que os olham cada vez mais preocupados, até eles se sentem perdidos neste paúl em que nos sabemos mergulhados.
Há, indiscutivelmente, sinais sociais preocupantes que nos estão a passar despercebidos. A autoridade nas ruas está perdida, a autoridade nas escolas também e há bastante tempo, o sentido de participação democrático sofre de uma letargia perniciosa, o nosso sistema nacional de saúde não funciona de igual forma para todos, os nossos políticos reúnem cada vez mais sozinhos e entre eles. Prenúncio de desgraça. E não há-de tardar muito. A república em perda.
Um investimento em larga escala na figura humana do professor, um retorno aos valores da reflexão e do humanitarismo, a vida do homem pelo homem, políticas voltadas e centradas no cidadão comum, na sua formação humana, políticas que protejam a família, esse farrapo que tanto se tem descuidado. Como pretenderão eles construir ou melhorar a sociedade tendo-se dado passos irresponsáveis que levaram ao enfraquecimento do núcleo duro familiar? Ou será que agora se julga que um homem saudável se cria dum plano burocrático de dois pais sem tempo nem paciência.
Quanto a mim, e assim acabo esta narrativa que já vai longa, se o homem se não conseguir reinventar recentrando-se enquanto pai e educador, creio que todo o castelo frágil e ténue que almejámos já ter conseguido alcançar ruirá num movimento massivo de perda de consciência social.

Nuno Monteiro

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O escritor e a escrita



Quem me explicará como se escreve bem? Quem me dirá como se retrata o belo? Porque há o lírio e as papoilas do campo e essas são belas. Mas também há a terra e o mar que são lugares imensamente belos. Então e a silhueta de um veleiro de velas enfunadas na manhã clara e calma de um dia de primavera. Belo também. E as palavras escolhidas com tanto labor, e as palavras cozidas como se fossem teares e os tapetes de Arraiolos. Ou os tapetes de flores do Alentejo. A literatura é belíssima. O acto de leitura é de uma serenidade e de uma sinceridade belíssimas. E os textos mais simples são tão bonitos.
Senti-o que voa de planeta em planeta para se descobrir a si próprio; atraiçoai o infeliz momento em que Coyotito morreu ou sede capaz de sentar na esteira de espuma da Isla Negra, percorrei as entranhas da vida esconjurada na selva até dardes de cara com esses olhos malditos desse demente ou deixai que o frémito da paixão vos arrebata quando se aperceberem que Carlos e Eduarda não são senão irmãos.
O que são para mim os livros? Representações de tantos belos alternativos como se todos juntos fossem os nossos guardiães da vida. São ferramentas de cirurgião que nos rearranjam por dentro e que nos impelem a seguir em frente. São calmantes para os hipertensos e são setas de venenos correctores que nos assolam o espírito e que promovem mudanças. Quem disse que se aprende com a vida? Aprendo com os livros que leio, porque os livros valem mais que a vida. Porque o âmago de um livro encerra sinceridade, ternura e compaixão e esses não encontro em mais lugar algum. Por isso mesmo o livro é belo. Desde que esteja realmente bem escrito.
Daí que eu volte à questão inicial. Como se escreverá um belo livro? Não pode ser feito com base numa fabulação de uma sociedade. Porque infelizmente nós não estamos rodeados por Camelot nem eu alguma vez terei visto alguma Távola Redonda. Por mais que a queiram imaginar tentai explicar o conceito aos esfomeados do nosso país. Deverá, pelo contrário mostrar sinceridade e explorar o hiper-realismo que despoletará no leitor a apreensão e a vergonha. Daí que os livros precisem versar o espírito humano. E o que faz o homem quando é contrariado? Repensa-se e reorganiza-se.
Mas o livro tem que ser mais que sinceridade. Também deve ser tensão. Também deve ser mágoa. Tem que encerrar arrependimento. Não poderá nunca ser de outra forma porque o escritor é um escolhido. Escolhido como um condenado por todos os males que os outros ou ele próprio fizeram. E a sua única forma de remissão é a compartilha nua e crua e sincera e mágoa. Então a literatura passa a ser uma forma alternativa de prisão como se o escritor fosse ao mesmo tempo preso e libertador, sob ele impenderá sempre a faca da atrocidade e a ele caberá sempre denunciá-la e degradar o mal. Como um paliativo para o sofrimento. Mas o que mais sofre. O sofredor que entrega aos outros calma e serenidade em forma de libertação. Eis a encarnação do altruísmo. Daí que a literatura seja bela. E toda a escrita é bela desde que dissolva o sofrimento. Como os lírios do campo ou as montanhas na sua quietude ou ainda os mares salgados e os ventos e as borrascas.


Nuno Monteiro
“ A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”

António Lobo Antunes

Prémio Histórico - Filosóficas