O que fazes com as palavras? Clara move os olhos rápidos, trémulos. Guardo-as! Adormecem comigo. Essas palavras são as minhas bonecas. Que queres de mim? As palavras não são para ser ditas. Ouço-as e deito-as comigo. Apenas isso… tudo o mais é pó. Pó que cai das estrelas… E na noite, na noite clara e estrelada, construo os meus caminhos… sonho as minhas asas… bico as tuas galhas…
Clara está deitada na praia. São nove da noite dum dia de Agosto. Nada a liga ao bulício da cidade. Nada a liga à liberdade dos falsos. Por ora, entretém lavando os pés pequeninos e as pernas de veludo. Salpicam-na da espuma branca das ondas e esperam-na já os Meros, lá ao fundo, na calma da noite. Está escrito por todo o imenso mar…
Nuno Monteiro
quarta-feira, 30 de junho de 2010
terça-feira, 29 de junho de 2010
Pubs...
Por vezes olho atrás e vejo a mim com os meus olhos de então, os meus olhos dos meus College Years. Those were the days em que eu, vi e senti, quis e fiz, sobrevoei a amizade. Não pela metade, nem parei, nem me molhei. Os meus dias e as minhas muito queridas noites… Era apenas eu, um pequenito menino enfiado (dentro dentro dentro) de uma guitarra. Na minha mão esquerda vivia uma garrafa mágica que me embriagava. E na minha mão direita um volante, que quando me levava pela estrada, dizia a todos os meus amigos. A todos os meus amigos. Eram, então, toooooodos oooos meus amigos. De tal forma que, juro, então, eu não via senão noite! E estradas que dançavam. And bars and pubs… algures deve haver uma fotografia… algo segurará algures uma fotografia. Que me agarre dentro dela. Pois anseio tornar a ver as estrelas, tal como elas eram, sem disfarces… sem traições.
As minhas amizades de então, deverão ter galgado estradas fora e desapareceram. Outras, felizmente, ficaram. Malditas estradas…
Mas há décadas de amizades que não as levam as estradas. Ficam por perto e cristalizam minhas irmãs. E fazem da minha terra a minha estadia e do meu lar a irmã que eu nunca tive.
Em meio de flores, veria talvez uma aflição enorme. Clara usou esse dia para chorar. Ela é o que é. E o que é não será nunca pouco. Teria sido tudo um engano da sorte. Mas Clara ainda não o sabia.
Nuno Monteiro
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Poema do gato
Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
António Gedeão
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?
António Gedeão
Pó
Morre o homem. Finda a caminhada no deserto. Queda-se muda, doravante, a voz inquieta. Uma enorme lucidez e uma vontade tenaz. Morre um cacto, na ilhota larga, livre, infinda. Talvez agora, liberto para sempre do crucifixo que o golpeava, completas que estão as cerimónias fúnegres e para sempre transformado em Cacto ou em Oliveira, possam os outros homens, os que ficaram, sentar e abrir um livro, para ler.
Porque…
O homem que morreu:
Foi um andarilho que num assomo de felicidade o prendeu a escrita
Foi um livre pensador que nunca se deixou calcar
Foi um ser humano que nunca desistindo tocou a liberdade.
E porque
Esse homem que não findou:
Ousou ser e querer
E por isso lutou
Desgraçados os homens que o queiram julgar. Quem julga que pode condenar um escritor? Esses, os que o quererão calar, bem lá no fundo saberão, ainda que tarde, que se não corta o pensamento e se não matam os cactos… e se, bem sei, haverá sempre desertos, haverá sempre cactos crescendo devagarinho, tresandarilhando e procurando caminhos…
E,
Até as oliveiras, essas magníficas páginas
Ibéricas como ele,
Sugar-lhe-ão o pó das estrelas
Estrelas que pulsam num lento restolho e que encerram o combustível da vida. Mas há estrelas mais brilhantes, há estrelas resilientes
Apetece-me talvez afirmar:
Que o herói não morreu! Não, o pintor das almas pode ter calado, mas a obra fica! A noite clara, límpida, fria, quase austera, é uma carapaça rígida e triste onde se vêm as estrelas, e onde, por vezes, chove, uma água limpa e clara, que lava o cacto e lhe dá alento.
Encontrei, quase por acaso, Clara, ajoelhada, chorando, defronte de uma Oliveira, peregrinando as palavras acima transcritas...
Nuno Monteiro
sábado, 26 de junho de 2010
Sensação
No azul das tardes de verão, irei pelos caminhos
Tracejado pelos trigos, pisar a erva tenra:
Sonhante, sentirei a meus pés sua frescura.
Deixarei o vento banhar-me a cabeça nua.
Não falarei - pensarei em nada:
Mas um amor infinito subir-me-á na alma, e eu
Irei longe, bem longe, como um cigano, feliz
Pela Natureza -, na companhia da mulher sonhada.
Arthur Rimbaud in. "O Rapaz Raro" relógio d'água
retirado de: http://ocafedosloucos.blogspot.com/2006_05_01_archive.html
Tracejado pelos trigos, pisar a erva tenra:
Sonhante, sentirei a meus pés sua frescura.
Deixarei o vento banhar-me a cabeça nua.
Não falarei - pensarei em nada:
Mas um amor infinito subir-me-á na alma, e eu
Irei longe, bem longe, como um cigano, feliz
Pela Natureza -, na companhia da mulher sonhada.
Arthur Rimbaud in. "O Rapaz Raro" relógio d'água
retirado de: http://ocafedosloucos.blogspot.com/2006_05_01_archive.html
Salpicos de chocolate
Sábado,
vertiginosa queda a de Clara. Acordara em sobressalto e aclareara por dentro de um casulo cinza, pouco espaçoso. Despida, via a corrente fria de um rio. O último rio. Habitara os pés por dentro das águas. E por dentro das águas não havia o casulo cinza. Habitava-se à água e a pouco submergia… acimava-se do fundo pedregoso… curvava-se sobre as águas… pousava pouco a pouco no ventre silencioso. O romance que acabaria por escrever chamar-se-ia “por dentro das lágrimas” e o herói seria um gato oleiro.
(um burrico salteador, um carreiro longo e estreito e a já citada escultura em barro)
Domingo,
resplandesceria de fé, numa seara qualquer. O burrico dera-lhe a conhecer o mundo mágico de Blimunda.
Nuno Monteiro
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Vagar na noite
“batera a porta da casa com estrondo e desde então, vagueava pelas ruas despidas. Noite quente e abafada sem um pio. Lembra-se de quando chegou à avenida Nevski e sentiu uma espécie de nudez que a corava. Uma espécie de vergonha de se apresentar ali, naquele palco, tão magra, tão expectante… Todos os prédios e todas as casinhas e todas as bonecas dormiam ao soslaio de deus. A treva dá abrigo a uma espécie de sono pálido e farto. Encostou o ouvido ao tronco duma dessas tílas que vestiam a rua e não lhe ouvia vivalma. Dormia também. Esta noite parece morta! E contudo ela será viva muito para além da minha própria morte. Súbito um barulho, dali de perto, do chão… pôs-se à coca! Um pequenino roedor que empurrava uma bola de alimento. Um andarilho russo… Clara pensa, contrariamente ao pequenito eu não sinto fome! Nem mesmo este passeio pela noite me é capaz de sugerir fome… e como o olhasse nos olhos e lhe visse a inquietude pensou de novo para ela engraçado, também não sinto medo! Ainda não avistara ninguém… dormiam todos, talvez! Então porquê? O que os conduziria a eles a um sono perfeito. Emagrecida. Aliara-se à noite e quisera aprender um pouco mais com ela. Tentara senti-la. mas, à semelhança da fome que não conseguia palpar, não fora capaz de ver a noite. E pensava estranha esta minha vigília... onde estão as águas dos rios?
E então consentira num amanhecer ténue, lento. Como os passos que ia calcorreando pelas ruas. Olhava-os. Via-os. Mas não se lembra de os ouvir! Foi como ela passou por essa noite… de olhos postos no chão, aqui e acolá vendo os dedos dos pés… teria passado algum tempo desde que batera com a porta de casa…”
Os primeiros laivos de luz trouxeram-lhe ecos… cheiros a especiarias. Deixara de ser noite e, talvez por isso, soprasse algum vento. Afundou-se num banco de jardim. Encafuou as mãos entre a cabeça e num jorro, pensou para ela… tanto para agora chorares! Devias saber que esse fascínio, esse delírio supremo finda como finda a beleza e a jovialidade. E depois? Ao fim do éter sobram farripas de cheiros, sentidos que cristalizaram numa espécie de vazio, no vagar da noite…
Clara lembra-se de pensar como é linda a noite, como eu quase me perdi nas tuas vagas…
Nuno Monteiro
quinta-feira, 24 de junho de 2010
O ruído dos pássaros
Viste? Por que não abrandaste? Esborrachaste a porcaria do pássaro…
(tanto por causa de um mísero)
Silêncio súbito! Perde-o da vista e
Tanto por causa dum mísero…
Enquanto mandava arriar as velas e lançar âncora, sujeitinhos doidos perdiam-se por esse mundo fora pensando mas que porra valerá a vida de um pássaro. Num palco ali por perto um montículo de ciganos erguera um acampamento e tendo já os miúdos a dormir, preperavam-se para as cantigas…
Clara diz, uma vez mais! Olha… sabes que eu não acredito que aqueles ciganos matassem o pássaro. São homens como tu mas as asas que os transportam são de anjo! E dito isto deixou que o vento lhe enfunasse as velas e a afastasse ao largo…
Nuno Monteiro
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