sexta-feira, 4 de setembro de 2009

o autista e o sonho


Detestaria magoar! Mas tens que acordar! Tens que acordar dessa morte!
Do lado de lá um autista passeia indolente ao redor do quarto…
E serás capaz de me dizer porquê?
Há gente a passar fome… Há gente a morrer…

Mas não percebes! Não perceberás que foi exactamente esse o motivo que ditou o meu afastamento. Não percebes que essa mágoa é insuportável…

Mas por isso mesmo! Estão a recrutar! Toda a revolução está de novo em marcha… Gente que passa fome… é grande demais a injustiça!!
E o autista derrama chuva! E o autista derrama berros surdos! Nos olhos do autista… nos olhos do milagre! Nos olhos o martírio?!
Nuno Monteiro
Ilustração - Rogério Ribeiro

um terceiro sol


madrugada alta quase manhã clara à balaustrada dum precipício de cores... faço de mim um olhador de céus nuvens e odores... mantenho o olhar fixo na calma premonitória da floresta e do ar... Toda a minha vista alcança... sem subterfúgios... sem azedumes ou mentiras. Todo o restante mundo é estridente como os corvos. não este lugar. não este que é ... este lugar é calmo e belo. todos os dias amanhece um pintor diferente. Todos os dias imune ao bulício dos homens e das grandes urbes... todos os dias um sol diferente... um quadro vivo que move as cores e as salpica com outras histórias outros sentidos...

quão alvos os amanheceres! são sempre a esperança de um dia diferente... são sempre a saudável lembrança da mudança... do seu interior nasce serenidade... nasce crença...

uma ilusão apenas me confunde! quando abraço a árvore e lhe sussurro (). não deixarei que façam de mim louco...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Eudora Welty


«Têm-me dito, como elogio e crítica, que pareço gostar das minhas personagens. Aquilo que faço quando escrevo sobre uma qualquer personagem é tentar entrar na mente, no coração e na pele de um ser humano que não sou eu. Quer se trate de um homem ou de uma mulher, velho ou novo, com pele negra ou branca, o principal desafio é o salto em si. O acto da imaginação de um escritor sobrepõe-se a tudo.»
Eudora Welty

http://relogiodaguaeditores.blogspot.com/

La Vie en Rose

este outro amanhecer


Na brisa deste novo dia confluem germes e outros animais da quinta… na ligeira brisa deste novo dia toda a quinta se levanta e se faz homem… na brisa deste novo dia cessam os movimentos dos pinheiros – quando se instalou a imobilidade? Desde quando cessou toda a actividade?
Lá longe por trás dos montes desenha-se a alvorada. Sargentos e bulícios despontam da soturna noite… o céu mostra-se sem cor. não há vermelho nem encarnado. Não há contornos de lilás. Não desponta amarelo algum. Lá longe por detrás da alvorada cresce um dia sem cor uma espécie de lama asfixiante…
As mesmas luzinhas acesas. Lutam para não esmorecer. Sabem que morrem a cada novo dia. Saberão? Sabem! A cada dia um pouco mais azedas. A cada dia pelo passar inexorável da desumana alma…
As nuvens como sombras desenham pelos céus malhas assustadoras… lembram o medo… lembrando ao homem quão homem ainda é! Semeiam escuridão por quase todo o lugar. Semeiam ignorância…
Os contornos mostram mãos e pés grotescos… lembram faces gastas feias. Não há um pingo de mel… todo o monte se prepara para a grotesca invernia. Mãos e pés grosseiramente grandes cavam caminhos e carreiros por onde o amor ()
No meio do tempo então um tiro ou um silvo… um gonzo ou um ribombar… e então abrem-se escancaradas as mil faces deste céu. O sol jorra agora fogo redentor… mas pelo meio dos bosques os gnomos correm a esconder-se.

É dum daguerreótipo… por sobre uma alvorada. Duns olhos que cegam submersos em medo… olhos sem as mãos ou as mãos esbracejando sem os olhos…

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Um lugar ao amanhecer



Há uma janela no quarto por onde ele olha o dia que só agora se mostra. Vê o céu em sangue que se espreguiça por entre uma espessa cortina de nuvens. Não tens vergonha!? Amanhece agora todos os instantes da imaginação e ele olha condoído a brisa fresca do novo dia que começa. Ainda salpicam as luzinhas da rua e dos postes. Das casas incumbem-se moradas e valentes… cruzam os céus por baixo das nuvens as aves iradas essas matizes voadoras. Por trás do sol nasce um vermelho belo áspero como a dor… o belo horrível encontram-se ali – por detrás daquele momento ao instante daquele lugar.
É o meu sol aquele sangue que só agora desponta. É esconso o dia daquele sol que se anuncia encarnado. Brilha intenso quando anuncia algo de novo. Lá longe por detrás dos montes por detrás da floresta. Adormecem os gnomos e escondem-se de novo
Impossível fazer palavras a retinir no que ele vê. Impossível fechar os olhos… agora a natureza morta deu lugar a uma vivacidade de luz e vibração. O dia nasceu. Por meio daquela pequena janela. Por meio das nuvens o sangue da luz cessa todo o encarnado e vai olhando para o amarelo… da terra e dos montes brota agora um matizado púrpura que eu sinto lilás!
Há uma janela por onde ele passa o dia!
Do meu lado do vidro mora um silêncio abrasador
É o meu sangue aquele sol que tão raro desponta! Em tão pouco lugar se derrama o dia…

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

as minhas questões...


Quanto mais sal quanto mais mar será preciso que todos os rios se deslumbrem quanto mais areia será do vento quanto outro ouro quanto outro machado será do sangue haverá sopro haverá palavras serei eu o louco saberás tu quando cruzar os ares quantos amigos em mim congregam-se as forças da volúpia e desfazem-se os acordes desmancham-se as montanhas pedra por pedra haverá algo mais sairemos deste sufoco saberemos convalescer. Haverá ilha haverá praia chegará até nós o vento do sul poderemos atirar pedras sangraremos férteis chegaremos para todo o choro seremos algum dia heróis....


Creio em cores e em difusos sóis creio em verde creio em opalas creio em todo o céu que te envolve...


Onde anda a juventude onde param as ilhas da tua irlanda onde és tu onde vives tu onde te despes onde te acautelas onde te acobardas onde te sacias...


Que falta de crítica que texto engomadinho que suporte antagónico que sentido de estado. Não há uma pinga de sono na tua face?!


escreves sempre assim?! que exagero de pontuação! que risada que bela fenda que pudor de febre!

A violência e o escárnio


(...) - Estava à tua espera, meu príncipe! disse ela. Sonhei contigo a noite passada. Ias montado num cavalo branco e matavas um dragão medonho. Mas o dragão voltava a nascer de cada um dos teus golpes, e nunca morria. E nessas ocasiões, tu, príncipe, rias-te como um perdido... E eu bem sabia por que razão te rias. Na verdade, não querias matar o dragão; o dragão divertia-te tanto que não o querias matar. (...)

Albert Cossery, a Violência e o escárnio, tradução de Júlio Henriques edição Antígona

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

“ A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”

António Lobo Antunes

Prémio Histórico - Filosóficas